19/07/2026
Ação Experimental

Grand Theft Hamlet

Durante a pandemia, os atores ingleses Sam Crane e Mark Oosterveen estavam sem trabalho, e passavam o tempo jogando GTA juntos. Até que tiveram a ideia de fazer uma montagem de "Hamlet" dentro do ambiente do jogo. O filme documenta esse processo inusitado.

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“Isso aqui é muito violento”, diz um personagem referindo-se ao jogo Grand Theft Auto. “Mas Shakespeare também é”, responde outro. E assim nasce o documentário experimental Grand Theft Hamlet, um projeto, no mínimo, inusitado sobre uma apresentação da famosa peça do bardo em ambiente virtual do jogo. Tudo começa com dois atores ingleses sem trabalho durante a pandemia, Sam Crane e Mark Oosterveen, jogando GTA cada um em sua casa. Enquanto fogem para sobreviver, encontram o anfiteatro Vinewood Bowl, e se perguntam se seria possível uma montagem de Hamlet dentro do jogo. 

O longa acompanha essa produção inusitada, quando os dois atores começam a planejar a montagem virtual da peça, e tudo é documentado pela câmera do jogo. Eles começam os testes para os papeis. Alguns “atores” e “atrizes” estão mais interessados em matar uns aos outros, mas há pessoas genuinamente interessadas no projeto, com histórias de vida que só têm a acrescentar mais elementos para o filme. 

Este é o caso do tunísio-finlandês ParTeb, que usa um avatar de alienígena e, a certa altura, é convencido a declamar trechos do Alcorão no palco. É um dos momentos mais sensíveis e bonitos do filme.  Nora, uma “atriz” encontrada no jogo, revela que há pouco tempo se assumiu para sua família como uma transexual, e se identifica com Hamlet em sua busca pela verdade. 

Crane e sua mulher, a documentarista Pinny Grylls, assumem a direção, além dos personagens dentro do filme – ele próprio faz o príncipe Hamlet, enquanto Oosterveen assume o papel de Polônio. A peça em si, mostrada ao final do filme, vai além do anfiteatro e toma a fictícia Los Santos, onde se passa o jogo. E, a partir disso, a montagem da peça ganha novas camadas, como na cena do fantasma, que pode ser mais tocante do que outras feitas em palcos reais. 

Produzido em 2021, olhar para esse filme quatro anos depois é relembrar um momento obscuro da humanidade, mas também celebrar a arte como instância de resiliência e criatividade, que, no final das contas, ajudou muito a atravessar aquele período. 

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