20/07/2026
Documentário

Quatro Paredes

Documentário indicado ao Oscar 2024, o filme da jornalista Shiori Ito registra sua luta incansável para levar adiante a investigação do estupro de que foi vítima em 2015, enfrentando obstáculos devido à posição social de seu agressor, um veterano jornalista que foi biógrafo do ex-primeiro ministro Shinzo Abe. No Sesc Digital até 02/11/2025.

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Documentário indicado ao Oscar 2024, o japonês Quatro Paredes reconstitui o pesadelo vivido pela diretora, a jornalista Shiori Ito, em sua luta para a investigação do estupro de que foi vítima em 2015. Detalhe: o agressor é outro jornalista, Noriyuki Yamaguchi, que foi biógrafo do ex-ministro japonês Shinzo Abe e era chefe do escritório de Washington da emissora Tokyo Broadcasting System.

Vítima de um ataque após um jantar em torno de uma suposta proposta de emprego, Shiori suspeita ter sido drogada naquela noite - e as imagens das câmeras de segurança de um hotel, que mostram Yamaguchi arrastando-a para fora de um táxi, certamente reforçam a suspeita, assim como outras dentro dos corredores do hotel.

Naquela altura, Shiori era recém-formada, tinha 25 anos e estagiava na agência Thomson Reuters. Yamaguchi tinha 53 anos e ligações poderosas. O caso transtornou sua vida pessoal e profissional, abalou sua psique, suas relações com amigos e família. Falando na primeira pessoa, Shiori mostra-se eloquente para levantar, ponto a ponto, todas as etapas deste período de 7 anos extremamente desgastantes, em que ficou, a princípio, debatendo-se com dúvidas se deveria levar o caso à justiça. Ela finalmente o fez, apenas para descobrir o quanto a polícia era omissa em investigações deste tipo, ainda mais tendo como acusado um homem próximo ao primeiro-ministro. Outra dificuldade é que a lei de estupro no Japão tem nada menos de 110 anos. A idade de consentimento sexual é apenas de 13 anos.

O calvário de Shiori, retratado em detalhes no documentário, ilustra bem as razões por trás de um dado que ela cita, de que apenas 4% das vítimas de estupro no Japão procuram ajuda, apesar de existir em funcionamento um Centro de Apoio contra a Violência Sexual. Gravando as conversas com os investigadores de seu caso, que ela não identifica, demonstra como as vítimas, e não os acusados, são submetidos a pressões. 

Apenas um dos investigadores acaba sendo sensível ao caso de Shiori. Por isso, ela descobre nuances de interferências externas no caso, como quando o chefe da polícia de Tóquio na época decide não cumprir um mandado de prisão que havia sido expedido contra Yamaguchi.

Esgotadas as possibilidades de processar seu agressor na esfera criminal, Shiori decide prosseguir na esfera cível, ao mesmo tempo que se prepara para publicar um livro - que também corre riscos de não poder ser lançado, dadas as ligações do acusado. Ela mesma acaba tendo de refugiar-se na casa de amigos, porque percebe que está sendo vigiada, um dos muitos prejuízos pessoais que ela sofreu. Sua própria família não crê que ela deveria dar seguimento à tentativa de responsabilizar Yamaguchi.

Com seu misto de fragilidade e determinação, Shiori mostra-se eloquente para retratar um caso que, certamente, se repete não só no Japão, mas em muitos lugares do mundo. E talvez só por sua persistência é que acaba encontrando novas testemunhas que finalmente ajudam a aclarar tudo, abrindo caminho para que ela tenha algum tipo de indenização, apenas em 2019 - depois de encarar inclusive uma ação de Yamaguchi contra ela, acusando-a de difamação. Como ele recorreu, o caso só foi finalmente encerrado na Suprema Corte, em 2022 - por coincidência, no mesmo dia do assassinato do ex-primeiro ministro Shinzo Abe. 

 

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