O íntimo e pessoal se torna político no documentário Hoje é o primeiro dia do resto da sua vida, dirigido pelo casal de roteiristas e cineastas Bel Bechara e Sandro Serpa, acompanhando a adoção do pequeno Gael, em 2021, em meio à pandemia e o caos político, social e cultural do país.
Parceiros no cinema e na vida, Bechara e Serpa brincam com a estrutura e as ferramentas do próprio cinema para documentar esse processo revitalizante em meio a um momento de dura realidade, marcada por ansiedades, medos e perdas. Como dizem, é um filme sem “low point”, um momento em que os personagens enfrentam uma recaída. Em outras palavras, é um filme que celebra a vida.
Em cena, há pouco da burocracia da adoção. Só o necessário para contextualizar e mostrar que não é um processo simples. Mas o que importa aqui são as descobertas e desafios da mãe e do pai de primeira viagem em lidar com o bebê de poucos meses que chega à sua casa.
Tudo é visto pelo ponto de vista de Bechara e Serpa, que se abrem com sinceridade diante da sua câmera. É ao mesmo tempo divertido (“Dar mamadeira é um mistério”, diz Bechara) e comovente (a cena em que finalmente podem levar Gael para casa é genuinamente emocionante) sem nunca cair numa pieguice barata para comover. Se o filme arranca lágrimas do público, é mérito de sua pura sinceridade.
A família, que ainda conta com o canino Miguilim, cresce, e é preciso lidar com tudo isso. Cansados, um tanto apreensivos e ansiosos durante os primeiros dias com o filho, Bechara e Serpa são também o retrato de sua conquista, da esperança de um país melhor diante daquele tsunami sócio-político de 2021. Seu filme documenta tudo isso com sagacidade e delicadeza. É, de certa forma, um longa caseiro em vários sentidos – um caseiro da melhor qualidade.
