O olhar estrangeiro, tantas vezes (devidamente) vilanizado, pode, em outros casos, no entanto, trazer uma vantagem de descoberta, como se mostra nesse documentário Um outro Francisco, segundo longa de Margarita Hernández, cubana-brasileira que tem em sua filmografia Che, Memórias de um ano secreto. Moradora por muitos anos no Ceará, atualmente no Rio de Janeiro, a diretora já está totalmente aculturada no Brasil, e acompanha nesse documentário dois fotógrafos italianos que vêm ao país.
Os imagens de Giorgio Negro e Dario de Dominicis são as da descoberta da romaria de São Francisco das Chagas, do Canindé, no interior do Ceará, um contraste com a romaria de São Francisco, em Assis, na Itália, que eles conhecem tão bem. Do choque inicial pela dimensão e maneira como as duas romarias se dão, eles mergulham no cotidiano da cidade, acompanham romeiros, guias e fotógrafos da região.
É um olhar que vem fresco para descobrir o Brasil e revelar, também, a nós. Alguns dos momentos mais interessantes são quando pessoas comuns, na romaria, veem pela primeira fez as fotos artísticas em preto e branco dos italianos, que eles fizeram ali mesmo. É a dicotomia entre a fotografia enquanto arte e, também, como um registro pessoal, uma recordação de um lugar, de uma experiência.
Já o contraste vemos quando o filme vai para a Itália. Na companhia de um frei brasileiro, descobrimos, por exemplo, que não se pode acender nos templos dali tantas velas como no Brasil, pois os afrescos que datam da transição da Idade Média para o Renascimento seriam destruídos com o calor das chamas. E, também, não seria possível erguer ali uma estátua de 30 metros, como em Canindé.
Das manifestações religiosas a outras mais populares, como um circo (cujo espetáculo se dá ao som de uma versão em sanfona da Valsa 2 de Dmitri Shostakovich) tudo no documentário lembra a riqueza da cultura brasileira, filmada com curiosidade e carinho.
