Este que é o primeiro dos Contos das Quatro Estações do diretor francês Éric Rohmer, ironicamente, acabou chegando por último às telas brasileiras, onde a tetralogia fez há alguns anos um delicado mas sólido sucesso. Talvez por ser o filme inaugural da série, nota-se, aqui, uma realização ligeiramente inferior à dos outros capítulos - Conto de Inverno (1992), Conto de Verão (1996), e Conto de Outono (1998). Mas nem por isso é desprovido de interesse e da marca pessoal do veterano Éric Rohmer.
São três mulheres e um único homem envolvidos numa pequena teia. Uma delas é a professora de filosofia Jeanne (Anne Teyssèdre), às voltas com uma série de contratempos. Emprestou seu apartamento parisiense a uma prima (Sophie Robin), que adia sua partida por motivos profissionais e amorosos. Jeanne tem a chave do apartamento do próprio namorado, que está viajando, mas detesta ficar lá sozinha, ainda mais no meio da bagunça que é tão familiar ao dono da casa, mas que ela detesta.
Numa festa, a professora conhece a jovem Natacha (Florence Darel) e as duas fazem amizade. Natacha convida-a a hospedar-se no próprio apartamento, na ausência do pai, Igor (Hughes Quester), um funcionário público em viagem. Apesar da diferença de idades e sentimentos, Jeanne e Natacha espelham-se uma na outra e encontram conforto em longas conversas, quase sempre sobre suas diferenças com os respectivos homens de suas vidas, o noivo de Jeanne e o pai de Natacha - de quem a moça tem um ciúme enorme, diante de seu namoro com uma jovem quase da idade dela, Eve (Eloise Bennet).
As três mulheres e Igor terminarão por encontrar-se na bucólica propriedade rural dele, em Fontainebleau - cujo jardim florido lembra a razão do nome do filme. Mas também não será equivocado pensar nas variações súbitas de temperatura da estação das flores, simbolizadas pelas violentas emoções, como raiva e ciúme que, de quando em quando, rompem a serenidade da história.
Como é comum nos filmes de Rohmer, há longas conversas encharcadas de filosofia - aqui fala-se de Platão e da Crítica da Razão Pura, de Kant, tudo isso numa simples mesa de jantar. Na trilha, estão presentes Beethoven e Schumann. Rohmer é um aristocrata do conteúdo, sem o ser tanto na forma. Prefere os atores não-profissionais, deixando o ritmo de suas histórias fluir com a naturalidade da vida real. É essa mistura original, provavelmente, o que encanta seus fãs.
