As discussões sobre modernidade e atraso no Brasil são bastante presentes na academia. Diversos pesquisadores já se debruçaram sobre o assunto, com conclusões bem interessantes. Uma das proposições, que parece ser unanimidade, é de que todo avanço, com o tempo, acaba repondo o atraso, dada a formação sociohistórica do país em sua base escravagista.
Premiado com uma Menção Honrosa no Festival É Tudo Verdade 2025, Quando o Brasil Era Moderno, de Fabiano Maciel, parte da observação e discussão da arquitetura no país para investigar nosso processo de modernização, que parece sempre ocorrer truncado, aos trancos e barrancos. Se, num primeiro momento, o filme aparenta estar refém de sua forma partindo de entrevistas, com o tempo justifica-se a sua didática por discutir um tema tão complexo e relevante.
Por meio de conversas com especialistas e riqueza de imagens, em especial, é óbvio, de construções relevantes, o longa se aprofunda em seu tema. Inspirado no livro Moderno e Brasileiro, do arquiteto e sociólogo Lauro Cavalcanti, o documentário vale-se da arquitetura e dos arquitetos brasileiros para se aprofundar na história do país. As disputas estéticas e de estilos são reflexos da construção, por exemplo, de uma identidade nacional própria, afastando-se da herança colonial.
Maciel também assina a montagem com Vitor Alves Lopes e Daniel Gomes, e o roteiro com Guilherme Vasconcelos e o próprio Lauro Cavalcanti, conseguindo transformar debates profundos em um filme acessível - e essa é uma das grandes virtudes desse documentário. As escolhas estéticas que vencem a disputa de narrativas arquitetônicas são o reflexo das disputas de poder, chegando até a discussões de tipos de educação que deveriam ser aplicados no Brasil: um embate entre uma linha conservadora e cristã e outra mais libertária e crítica.
Ou seja, estão em cena conflitos ideológicos que perduram até hoje, talvez de maneira ainda mais incisiva. Dessa forma, Quando o Brasil Era Moderno olha o passado nacional para entender como chegamos até aqui, e, nesse sentido, joga uma luz incisiva no nosso presente.
