Para o escritor americano J.P. Donleavy, escrever é transformar os seus piores momentos em dinheiro. Toda a frustração, fracasso e angústia criam uma atmosfera criativa, que faz o artista exteriorizar seus sentimentos nos personagens de suas obras. E para Alex Sheldon (Luke Wilson), protagonista título do filme, isso se tornou uma verdade absoluta. Sem inspiração para começar seu livro, Sheldon (o sobrenome de outro escritor famoso, Sidney, será mera coincidência?) se vê na difícil situação de terminá-lo em 30 dias, data limite dada por agiotas cubanos, a quem deve uma fortuna. Desesperado e sem um computador, contrata os serviços de uma jovem, taquígrafa a quem dita sua obra. A moça em questão, Emma (Kate Hudson), não apenas torna-se sua musa inspiradora, como também amante. Essa é a história de Alex & Emma, uma comédia romântica inspirada na criação do romance de Fiodor Dostoievsky, O Jogador. Em pleno século XIX, o autor russo, atolado em dívidas de jogo, teve apenas 30 dias para terminar sua obra-prima com a ajuda de uma taquígrafa, por quem acabou se apaixonando. Uma história de amor, de veracidade duvidosa, mas que não poderia passar incólume por Hollywood. No entanto, apenas o relato dessa relação não pareceu ser suficiente para chamar espectadores. Por isso, o gancho criativo da produção é que vemos continuamente o desenvolvimento do livro escrito por Sheldon (passado na década de 20) com atuação dos mesmos atores. Nele, Luke Wilson é o protagonista e pretendente da bela e extravagante Polina (Sophie Marceau). Ao seu lado está Kate Hudson, que aparece como uma intrometida babá. O triângulo amoroso é montado para dar vida a um romance digestivo. Essa dualidade dá certa variedade visual, mas isso não salva o filme. Por mais que o roteiro tenha as bases necessárias para o gênero, o resultado final não é muito romântico ou cômico. E quem ainda se entusiasmar e quiser ver um exame metafórico do processo criativo do novelista se decepcionará ao perceber que isso é apenas um pobre pretexto para relacionar o casal protagonista. Além disso, as "surpresas" criadas pelo roteiro são para lá de previsíveis - isso para não falar no desfecho da trama. O diretor Rob Reiner, que tem em seu currículo pérolas como Harry e Sally - Feitos um para o outro e Conta Comigo, não conseguiu melhorar o fraco roteiro. Apesar da boa química entre os atores, o humor bobo e a infinidade de clichês são predominantes na trama para desespero do espectador. Há quem diga que o filme é ideal para tardes chuvosas de domingo. Mas, de qualquer forma, isso não é um alento para quem prefere gastar seu tempo comendo pipoca na sala escura.
