Voltando às telas 30 anos depois de seu lançamento, em versão remasterizada em 4k, Carlota Joaquina, Princesa do Brazil, de Carla Camurati, vive a oportunidade de resgatar não só o próprio filme como a história peculiar e até heroica que o cerca.
Lançado em 1995, o longa foi um divisor de águas para o cinema brasileiro. Sucesso de bilheteria, com 1,3 milhão de espectadores originalmente, representou uma verdadeira ressurreição para um cinema nacional cuja morte havia sido encomendada pelo fechamento da Embrafilme, em março de 1990, uma medida vingativa de outro presidente inimigo da cultura, Fernando Collor de Mello.
As filas nos cinemas de todo o País para ver Carlota Joaquina… embalaram a Retomada, como se chamou o período que ele inaugurou e revelou tantos novos nomes, inclusive o da própria Carla, que aqui fez sua estreia na direção, além de atuar como co-roteirista e co-produtora que botou as latas de seu filme debaixo do braço e foi batalhar na raça os espaços de exibição.
O que dialogou com o público foi uma visão irônica e até debochada da História do Brasil que, por isso mesmo, revelou algumas verdades sobre todo o processo de formação da nação, escancarando vícios do período colonial que deixaram suas marcas, de certo modo, até hoje. Ademais, a personagem da princesa espanhola (interpretada, quando criança por Ludmila Dayer e, na vida adulta, por Marieta Severo), que se tornaria princesa em Portugal pelo casamento com D. João VI (Marco Nanini), revela igualmente um olhar aguçado para a questão de gênero através da história e das classes sociais que deve ser ainda mais apreciada nos dias de hoje.
Agarrada, por assim dizer, pelos dentes, na interpretação aguerrida de Marieta Severo, a personagem nobre apresenta-se voluntariosa, sensual, eventualmente tirânica e racista, sem perder de vista as nuances que a tornam humana mesmo em seus piores momentos.Mas essa soma demonstra a energia indomável de uma mulher, prometida em casamento aos 10 anos de idade, como era costume séculos atrás, que atravessa uma união de conveniência com um homem de temperamento apático, oposto ao seu, e que ela traiu avidamente - a ponto de vários de seus filhos não serem mesmo de D. João e sim de seus amantes.
Retratando em seu centro a apressada fuga da família real portuguesa para o Brasil, fugindo covardemente das tropas napoleônicas, em 1808, o filme retrata os aspectos mais incômodos do episódio para a colônia - forçando o deslocamento de diversos moradores do Rio de Janeiro de suas casas para abrigar os muitos membros da Corte. É desses confrontos cotidianos, mais do que de uma análise histórica densa, que o filme se alimenta, traduzindo, no entanto, o contraste econômico e social que se agrava com a chegada do então príncipe D. João, acompanhado ainda de sua mãe, D. Maria I (Maria Fernanda), não sem motivo conhecida como “a rainha louca”.
A partir desse tom zombeteiro no retrato de situações e personagens, o filme não deixa de suscitar reflexões, como a do quanto a história do País foi mudada por acasos. E que até a fuga desastrada da família real, com toda a perturbação que causou, trouxe também algum desenvolvimento à descuidada colônia, que passou temporariamente a ser o centro do império português. Desenvolvimento esse que esteve também no cerne da aceleração da independência do Brasil, estimulada, talvez, mais pela impulsividade do jovem primogênito de D. João, D. Pedro (Marcos Palmeira), do que por um processo histórico mais maduro.
Essa falta de solenidade diante da História, rejeitando o tom tantas vezes empoeirado dos filmes de época, ganha aliados de peso na cenografia e nos figurinos - que lembram os de uma ópera e enchem os olhos, nem deixando entrever as limitações orçamentárias do filme (que teria custado, na época, cerca de R$ 500 mil). Tomara que o público atual possa redescobrir os méritos desta pequena jóia.
