Partindo de registros pessoais, em Seu Cavalcanti, o cineasta pernambucano Leonardo Lacca cria uma espécie de dialética entre o real e o fictício num filme que brinca o tempo todo com o jogo de cena, mas coloca o afeto acima de tudo nos registros que o diretor fez de seu avô, a figura do título, ao longo de 20 anos.
As filmagens de Seu Severino Cavalcanti começaram de forma despretensiosa, quando o cineasta ainda era estudante de comunicação e usava uma câmera da faculdade. Mas, ao longo das duas décadas e com a montagem dos irmãos Luiz e Ricardo Pretti, o filme ganha um escopo e uma abrangência universal em sua observação do simpático avô e suas dinâmicas pessoais e políticas nesse tempo todo.
É um tanto infrutífero pensar no que é documental e ficcional aqui, pois tudo é tão verossímil que é difícil descobrir – mesmo as encenações podem ser encenações de coisas que aconteceram, talvez não da forma mostrada e não com as pessoas em cena, mas podem ter acontecido. O que vale é mergulhar nessa gramática imagética que é totalmente sedutora, em sua maneira carinhosa de observar esse homem de 90 e poucos anos, policial aposentado, politicamente ativo (mesmo não sendo obrigado, ele vota e faz campanha para Dilma Rousseff, em 2014), independente com seu carro e bom de conversa e fazer amigos. O pessoal do banco, como diz o diretor, o adora por aceitar todos os empréstimos oferecidos.
Ainda assim, há momentos profundamente dramáticos, tristes mesmo, que o filme mostra de maneira respeitosa. Nunca o longa cruza uma linha questionável das coisas que mostra sobre Seu Cavalcanti e sua família – o diretor, sua mãe e tia sempre estão em cena. São relações domésticas como tantas outras, mas, ao mesmo tempo, como todas as outras, com suas particularidades. A narração de Lacca revela seu carinho, proximidade e admiração pelo avô, que tem como figura paterna.
Vinhetas protagonizadas pelo Seu Cavalcanti para o festival recifense Janela de Cinema de 2008, são alguns dos momentos mais divertidos do longa, tanto nas filmagens quanto o resultado final, um tanto inusitado. Há outras cenas, assumidamente ficcionais, nas quais a atriz Maeve Jinkings faz uma jovem simples e sedutora. Novamente, funciona a magia do cinema e a conexão entre fato e ficção. Sabemos que aquilo ali é encenado, mas é totalmente inventado. Mas importa? Não, no fundo, Seu Cavalcanti, uma figura inesquecível, é um senhor cinematográfico, em seus gracejos, sua boa conversa e sua presença na tela. Depois dos 80 minutos de filme, é como se o conhecêssemos há tempos, e a vida fica melhor por causa disso.
