A Guerra dos Bálcãs dos anos 1990, que se seguiu ao fim da Iugoslávia, foi um dos eventos mais dramáticos do final do século 20. Ainda hoje, continuam a surgir histórias abordando os muitos traumas deixados nos sete países que resultaram da divisão iugoslava.
Um deles é a Macedônia do Norte, cuja capital, Skopje, é o cenário de um duro reencontro entre vítima e algoz daquela guerra. O confronto é armado por um dos lados como se se tratasse de um encontro amoroso, intermediado pela agência Toque de Felicidade.
Asja (Jelena Kordic Kuret) é uma mulher de 40 anos, que pensa estar-se dirigindo a um evento social, como várias outras mulheres e homens, num hotel. Todos vão conhecer um provável parceiro, com quem já trocaram mensagens pela internet. O par de Asja é Zoran (Adnan Omerovic), que se empenhou neste encontro, ainda que com intenções bem distintas das dela. Ele tem uma agenda secreta que inclui um pedido de perdão por um episódio na guerra, envolvendo Asja, muitos anos atrás, mas ela nem desconfia disso.
Diretora experiente, conhecida por filmes como Matei um Santo (2004), sua estreia em longas, e o recente Deus é Mulher e seu Nome é Petúnia (2019), Teona Strugar Mitevska não é cineasta de evitar polêmicas ou temas espinhosos. Neste novo drama, ela arquiteta este reencontro entre duas pessoas que compartilham um trauma, embora na situação tenham estado em lados opostos - Asja como vítima, Zoran como o soldado que atirou nela.
As circunstâncias deste acontecimento divisor de águas vão sendo reveladas aos poucos, ao mesmo tempo que se desenrolam as atividades com que a agência de encontros promove a aproximação entre os candidatos - que incluem de conversas a jogos, danças e outras situações, eventualmente bizarras.
Mesmo ambientado num cenário que parece pouco propício a acertos de contas, o duelo entre Asja e Zoran se anuncia através de uma série de incidentes que a diretora, aqui também roteirista, ao lado de sua parceira habitual, Elma Tataragic, prepara valendo-se também dos demais personagens. De idades e origens diferentes, eles também estão ali para contribuir para um retrato das dolorosas diferenças étnico-religiosas que deram origem à guerra dos anos 1990 - cujas cicatrizes os mais velhos exibem, não raro literalmente, em sua carne, como é o caso de Asja.
Os mais jovens, nascidos depois do final dos combates, massacres e da divisão dos países, estão representados em outro evento no mesmo hotel, uma balada para menores de 18 anos em que nenhuma lembrança do passado parece penetrar - exceto pela passagem efêmera de Asja. É uma imagem poderosa, remetendo à ideia da necessidade de ir em frente. Mas não sem antes um doloroso resgate das lembranças, uma espécie de julgamento informal em que o culpado Zoran, afinal, poderá também declarar os seus motivos e eventuais atenuantes.
