É estranho que eu não tenha escrito antes sobre Asas do Desejo, que certamente é um dos filmes da minha vida. Se eu fizesse uma lista dos títulos definitivos para mim (coisa que não aprecio muito), ele certamente seria um deles, independente do tamanho dessa lista. Correria até o risco de ser o favorito da vida de todos os tempos.
A oportunidade de tê-lo revisto em sua versão restaurada em 4k, com som e imagem tinindo, numa bela projeção no Cinesesc de São Paulo deu-me a chance de finalmente escrever um texto que capture de algum modo as muitas sensações que essa obra sensível me trouxe ao longo da vida. Afinal, já se vão quase 40 anos de seu lançamento, que aqui no Brasil começou em sessões disputadíssimas da Mostra Internacional de São Paulo. Fui uma das privilegiadas a descobri-lo na tela ainda assim, jovem e recém-lançado internacionalmente há um ano.
Desde então, eu revisito essa história povoada por anjos tão atentos às pessoas comuns como Damiel (Bruno Ganz) e Cassiel (Otto Sanders), frequentadores de telhados, monumentos, bibliotecas, trens, metrôs, becos, estações, corredores, apartamentos. Aproveitando sua imaterialidade física e ouvido multipolifônico, capaz de captar os sentimentos mais íntimos de qualquer pessoa, eles fazem essa escuta dedicada e nunca indiferente, compartilhando os sentimentos mais banais e mais desesperados - o que acarreta um preço também para eles, que não podem impedir atos extremos, como um suicídio. Sua proximidade aos homens permite uma troca de energia espiritual, que pode proporcionar conforto a quem recebe, mas não o priva do livre arbítrio, o sinal mais expressivo da complexa liberdade humana.
Tudo que em Paris, Texas (outra obra-prima de Wim Wenders) é silêncio, em Asas do Desejo se transforma num turbilhão de palavras, sussurradas dentro dos corações, ouvidas apenas por esses anjos, formando um texto de alto teor poético, nesse roteiro magnífico, assinado pelo diretor Wenders e o escritor e dramaturgo Peter Handke. Por isso, será inesquecível para sempre aquela primeira frase do filme: “Quando a criança era criança….”, que abre as reflexões de um escritor invisível, que procura definir as emoções de quem descobre a vida humana pela primeira vez. E que não será outro do que Damiel, o anjo que escolhe abrir mão da eternidade para tornar-se simplesmente um mortal.
Nessa opção drástica, há um ato de amor e não só por Marion (Solveig Dommartin), a inefável trapezista que Damiel vislumbra num circo, sintomaticamente portando asas angelicais no vôo de seu número. Damiel experimenta amor por todo e qualquer ser humano de que se aproxima, uma paixão coletiva pela complexidade desse estado tão frágil, inconstante e arrebatador ao mesmo tempo. Um sentimento que é como de criança descobrindo as possibilidades da vida em todo o seu frescor e imprevisibilidade - um preço que o anjo acha justo pagar em troca do tédio das certezas e da imutabilidade da imortalidade.
Outros personagens têm seu papel na decisão de Damiel, como Peter Falk, o popular protagonista da série norte-americana Columbo, visitando Berlim para atuar num filme sobre a II Guerra Mundial e que demonstra uma inusitada conexão com os invisíveis anjos, que em tese apenas as crianças podem enxergar. Falk traz consigo uma sabedoria especial, injetando a história de um humor que também Damiel saberá compartilhar, especialmente no início de sua transição à carnalidade humana - numa explosão da versatilidade de um ator como Bruno Ganz em sua expressão mais matizada.
Nick Cave também faz uma incursão, injetando a expressão do rock contemporâneo no filme, em ambientes subterrâneos em que Marion e Damiel podem misturar-se à multidão roqueira e compartilhar outro sentimento diversificado de pertencimento à energia do próprio ritmo, uma das pulsações de uma Berlim ainda dividida pelo Muro, que cairia cerca de dois anos depois do filme.
A própria visão do antigo Muro nas imagens da esplêndida fotografia de Henri Alekan insere na história um toque de nostalgia, de uma História em parte transformada, mas que a própria vitalidade de Damiel e Marion transforma numa coisa mais visceral e, de certo modo eterna. Porque provavelmente não há quem, em qualquer tempo ou lugar, com a idade que possa ter tido, não tenha sonhado em ter por perto um anjo tão carinhoso e empático quanto Damiel e Cassiel - que continua sua trajetória no alto dos monumentos de uma Berlim onde hoje não se reconhecem mais as cicatrizes do Muro mas vive, como qualquer lugar, seus próprios dilemas e encantamentos.
Aliás, se posso arriscar uma hipótese de porque o filme me encanta tanto desde sempre é a minha nada secreta esperança, convicção, quem sabe, de que a humanidade tenha jeito e que os anjos, afinal, vivam entre nós.
E, como nas revisões, as descobertas são sempre inevitáveis, a versão restaurada em 4k me trouxe isso: algumas sequências extras de cor, instantâneas, que não havia visto ao assistir ao filme antes - e que provavelmente não estavam ali mesmo antes, nas cópias com menor definição a que tive acesso. Que ótimo que tudo isso foi possível e que quem assiste ao filme hoje pela primeira vez pode desfrutá-lo assim por inteiro.
