20/07/2026
Religioso

A Palavra

Jezebel é uma repórter de televisão ambiciosa e sensacionalista que vê uma grande chance ao fazer uma matéria sobre um suposto profeta que estaria operando milagres. Ela mesma, porém, acaba se transformando.

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Diretor de estética neo-noir sofisticada e herdeiro do cinema da Boca do Lixo, Guilherme de Almeida Prado se aventura pelos caminhos do drama religioso no problemático A Palavra – longa rodado há mais de uma década e que só agora vê a luz do dia. O filme é um objeto não-identificado na carreira do cineasta que assina obras como Perfume de Gardênia e A Dama do Cine Shangai.

Roteirizado pelo próprio diretor, o filme, em alguns momentos, mais parece uma brincadeira marota com o gênero religioso do que algo sério, resvalando em proselitismo cristão com personagens que atendem por nomes bíblicos, como Jezebel, Elias, Eliseu, e um canal de televisão chamado TV Baal. O didatismo e os diálogos artificiais e expositivos são alguns dos grandes problemas aqui – afinal, filmes de temática religiosa podem ser bons, como já provaram O Evangelho Segundo São Mateus, de Pier Paolo Pasolini, e o próprio A Palavra, de Carl Theodor Dreyer, do qual Almeida Prado pega o título emprestado. 

Jezebel (Regina Remencius) é uma repórter de televisão ambiciosa e sensacionalista que busca um certo profeta Elias (Tuca Andrada), famoso por seus milagres e a quem ela pretende desmascarar. No entanto, ela acaba sendo surpreendida quando ele anuncia um milagre para ela: está grávida, mesmo não podendo ter filhos. É realmente uma surpresa para a jornalista e seu namorado e chefe (Luciano Szafir).

Além disso, Elias está diminuindo a seca na região do Nordeste, onde a trama se passa. Mais uma vez, tentando desmascará-lo, Jezebel arma um debate televisivo entre ele, agora na figura do engenheiro Eliseu, e um político corrupto, Hadade (Oscar Magrini). A discussão termina com Hadade dizendo: “Minha bíblia é Karl Marx". Sim, esse é o nível. 

A trama arrastada, em ritmo e visual de televisão ruim, é repleta de lições sobre a vida, os ensinamentos e as ações de Deus, e o bem triunfando sobre o mal graças ao poder da fé. As atuações são sofríveis e os belos cenários naturais do Ceará quase enfeiados por uma fotografia que beira o artificial. 

Sem lançar um filme há quase duas décadas – o último foi Onde Andará Dulce Veiga?, de 2007 –, Almeida Prado merecia mais, seja por seu talento ou por sua carreira tão interessante. 

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