20/07/2026
Documentário

Maldito Modigliani

Nascido em Livorno, em 1884, Amedeo Modigliani revelou bem cedo sua tendência para as artes. Apoiado pela mãe, ele desenvolveu seu talento na pintura e depois na escultura, imigrando para a Paris da Belle Époque, onde conviveu com diversos artistas e viveu amores e excessos.

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Produzido para lembrar o centenário da morte do pintor italiano Amedeo Modigliani (1884-1920), Maldito Modigliani, da diretora Valeria Parisi, procura sair do convencional modelo “cabeças falantes”. Essa opção permite que o filme injete um bocado de vida na recuperação da memória de um artista que realizou muito, apesar de ter atuado não mais do que 14 anos e ter morrido cedo demais, antes de poder beneficiar-se de uma consagração que leva a que, hoje, seus quadros e esculturas sejam arrematados em leilões por muitos milhões de dólares.

Uma escolha consistente com esta intenção é inserir, desde cedo no filme, uma voz feminina, de uma espécie de narradora onisciente, que representa Jeanne Hébuterne, a última companheira do pintor, interpretada por Maria Magdalena Hoer. Se há um acerto na escolha de inserir a narradora, já que ela permite observações pessoais e comentários sobre diversos personagens da vida do pintor - como os colegas Picasso, Soutine, Fujita, Chagall, Léger e Brancusi, entre outros -, uma opção inexplicável é que ela fala inglês. Na vida real, Jeanne era francesa e a escolha de outra língua, portanto, não faz o menor sentido e soa como um ruído, num filme que tem várias qualidades.

Essa voz intimista de Jeanne soma-se, como não poderia deixar de ser, às de vários especialistas ouvidos em boas entrevistas, como Marc Restellini, historiador de arte e dirigente de um instituto que leva seu sobrenome, especializado em dirimir dúvidas sobre a autoria de quadros falsificados. Não se dispensa mesmo a entrevista de um famoso falsificador, além de dirigentes de museus que guardam os quadros do pintor.

Mas é pela voz de Jeanne que se fala dos diversos amores de Modigliani, como a poeta russa Anna Akhmatova e a jornalista feminista inglesa Beatrice Hastings, dando conta da vida pessoal instável e apaixonada do artista, que ficou conhecido também por seus excessos de bebida e drogas, sem que isso o impedisse de produzir uma obra extraordinária e inovadora. 

Sua faceta trágica emergia também de sérios problemas de saúde, sobrevivendo a uma febre tifoide na infância e enfrentando por anos as sequelas de uma tuberculose a que, afinal, sucumbiu, aos 36 anos. A própria Jeanne, afinal, não lhe sobreviveria mais do que dois dias, suicidando-se grávida do segundo filho do pintor. 

Por essa riqueza de visões e detalhes, Maldito Modigliani captura uma coisa importante, que é o contexto da época em que um artista viveu como elemento indissociável de sua criação. Não foi por acaso que Paris, no tempo em que o pintor lá viveu, foi refúgio de tantos artistas criadores, na chamada Belle Époque - que os horrores da II Guerra Mundial viriam finalmente destroçar. 

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