Quem pensar em poesia ao reparar no título deste documentário de Sepideh Farsi, não erra o alvo. Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe é uma frase poética, retirada de uma das conversas que a protagonista do filme, a jovem fotojornalista palestina Fatma Hassona, numa das conversas mantidas com a cineasta iraniana, via zoom, por cerca de um ano. Um material que ganhou uma urgência adicional quando Fatma, de 24 anos, foi morta, num bombardeio israelense em Gaza, um dia depois de saber que o filme fora selecionado na seção ACID, em Cannes.
Saber desta tragédia não tira nenhum pingo da emoção nem do interesse no filme, muito pelo contrário. Reforça a importância de manter viva não só a questão de Gaza, que continua sangrando, apesar do propalado cessar-fogo, e da própria singularidade de Fatma.
Um único ser humano pode sintetizar uma situação, uma causa, um dilema, uma tragédia. Tudo isso está contido nas conversas de Sepideh e Fatma, que ilustram o cotidiano avassalador dos palestinos ilhados em casas em escombros, com pouco acesso a comida e água e atormentados por constantes bombardeios, além das intempéries climáticas. Uma situação insuportável que Fatma descreve e enfrenta com um inabalável sorriso, que não significa nenhuma negação da gravidade do que enfrenta e sim uma indispensável resiliência e esperança que permita seguir adiante.
Diante de tudo, Fatma opta também por dar testemunho, particularmente através de suas fotos, que documentam o lento aniquilamento de seu povo mas também suas inúmeras formas de resistir e compartilhar pequenos alívios. Um povo sob cerco é também um povo desafiado a encontrar no fundo de si o seu melhor e na solidariedade a mais elementar forma de subsistir.
Enfrentando a precariedade do sinal de internet que permite seus contatos, tanto a cineasta quanto a fotojornalista encontram uma forma de convívio - até porque a Sepideh não é estranha a ideia de resistência. Exilada do Irã na França há 40 anos, a cineasta descobriu ainda adolescente o sentido de lutar pela liberdade e pela expressão, o que lhe custou meses de cadeia ainda na adolescência e a proibição de frequentar a universidade.
As conversas com Fatma giram em torno das coisas mais triviais, ainda que dramáticas no contexto de Gaza, como o que há para comer, além de algumas mais sérias, como sua opinião sobre o 7 de Outubro. Mas há também o espaço para os sonhos: a moça sonhava em viajar, conhecer o Vaticano e outros lugares. Quando o filme foi selecionado para Cannes, em abril de 2025, a cineasta se esforçava para encontrar meios de levar Fatma ao festival - o que ela desejava, mas temia também, já que não queria ser impedida de voltar a Gaza. “Não temos outra terra”, dizia.
A morte brutal de Fatma dá sentido, reversamente, mais uma vez, ao filme - ainda que de modo algum possa ter sido justificável. Mas termina sendo mais um argumento a favor de sua circulação, da manutenção da memória de Fatma e da necessidade de falar sobre Gaza. Não se pode nunca esquecer disso.
Leia a entrevista da diretora Sepideh Farsi
