Mãe Fora da Caixa é um filme sobre maternidade – mas não é qualquer uma, é sobre uma bastante específica: branca, carioca, de classe média alta e com uma boa rede de apoio. Como várias ciências já bem já mostraram, a maternidade não é um dom ou instinto, mas uma construção social imposta à mulheres, e o filme, embora, por vias tortas mostra isso, e essa talvez seja sua maior qualidade.
O roteiro é inspirado na peça de Claudia Gomes, que, por sua vez, parte do livro homônimo de Thaís Vilarinho. Miá Mello, que interpreta o monólogo nos palcos, assume novamente a personagem com verve e sagacidade. Mas não há como não pensar nas limitações da protagonista enquanto personagem em seu retrato de uma bolha bastante específica – embora, é claro, os dilemas e desafios enfrentados por mães existam independentemente da classe social, só que cada uma precisa lidar de um jeito.
O filme começa com Manu (Mello) no banheiro de uma festa infantil, fazendo um teste de gravidez. Enquanto espera o resultado, repassa toda sua vida, do nascimento da filha até ali. Bem-sucedida em seu trabalho num grande hotel de luxo, ela entra em licença-maternidade com o nascimento, e imagina que será tudo uma maravilha com a recém-nascida.
O longa dirigido por Manuh Fontes, com roteiro de Patrícia Corso e Patricia Leme, se constrói, num primeiro momento, como uma crônica, com pequenos acontecimentos ligados pelo fio condutor dos primeiros dias da maternidade, que logo viram semanas e meses. Os problemas enfrentados por Manu vão desde o marido (Danton Mello) ausente pelo trabalho até a mãe dela (Malu Valle), repleta de boas intenções, mas intromissiva. Fora, é claro, o choro, a falta de sono, as cólicas que enfrenta a bebê.
Manu sempre foi dona de muitas certezas, leu diversos livros sobre como cuidar de filhos pequenos, mas, aos poucos, percebe o óbvio: não existe manual, cada criança é de um jeito – assim como cada mãe – e a beleza e desafio dessa jornada é descobrir como devem ser as coisas. E enquanto o filme segue nesse modelo fragmentado, funciona melhor do que quando, na reta final, cria uma história tola sobre o aniversário de um ano da criança e a necessidade da protagonista trabalhar no dia da festa.
