No drama norueguês, vencedor do Grande Prêmio do Júri em Cannes, o diretor Joachim Trier retoma a parceria com a atriz Renate Reinsve, premiada no mesmo festival em 2021 em outro filme dele, A Pior Pessoa do Mundo, agora numa chave bem mais dramática. Ela interpreta Nora, uma atriz com sérios problemas emocionais, que têm suas raízes numa história familiar complicada, marcada pelo fantasma do suicídio e uma relação tensa com o pai cineasta, Gustav (Stellan Skarsgard).
Renate abraça com garra este papel com muitas nuances e que se revelam nas interações com sua irmã, a doce Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas), e também com uma atriz norte-americana, Rachel Kemp (Elle Fanning) - contratada por seu pai para interpretar a protagonista do novo filme dele, para o qual ele insistira em ter a filha, sem sucesso. Nora não quer dar trégua nesta infinita guerra contra Gustav, para a qual não parece haver redenção possível.
Como é hábito na obra de Trier, caso de Oslo, 31 de Agosto e Mais Forte que Bombas, o diretor mostra habilidade na construção de uma série de arcos emocionais complexos, explorados numa história que mantém o interesse e realiza um retrato nuançado e moderno das relações familiares, num bom exemplar do cinema nórdico.
Essa ressonância tem colocado o filme na mira das premiações internacionais, na pré-lista do Oscar 2026 (categorias filme internacional, fotografia e casting), com 8 indicações ao Globo de Ouro e outras mais.
Talvez seja exagero lembrar de Ingmar Bergman mas é fato que Trier está se esforçando em trilhar o caminho temático do falecido mestre sueco. Mas é bom que se diga que ele ainda não chegou lá. Valor Sentimental ressente-se de um andamento um tanto esticado dos problemas emocionais de Nora, em duelo permanente com esse pai indiscutivelmente ambíguo e que, em dado momento, parece ter perdido um pouco a energia. Por outro lado, a personagem de Elle Fanning parece um tanto perdida, quase descartável neste confronto familiar tão em primeiro plano.
