03/06/2026
Comédia Drama

Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria

A vida de Linda está cheia de problemas, e ela não tem com quem contar para ajudar. Seu marido, viajando a trabalho, deixa sob seus cuidados exclusivos a pequena filha doente do casal. Ao mesmo tempo, depois de desabar o teto de um cômodo de seu apartamento, ela precisa se mudar com a menina para um hotel. Além disso, trabalhando como terapeuta, precisa lidar com as aflições de seus pacientes, enquanto seu próprio terapeuta parece ignorá-la sistematicamente. Nos cinemas.

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“Um dingo pegou meu bebê” é uma famosa frase atribuída à australiana Lindy Chamberlain-Creighton, quando, no começo dos anos de 1980, foi acusada de matar sua bebê de pouco mais de dois meses, enquanto a família acampava. Anos depois, foi descoberto que realmente um dingo havia pegado a criança e a matado. A frase tornou-se imortal no filme Um Grito No Escuro, no qual a mãe é interpretada por Meryl Streep. 

Não por acaso, Lindy e sua história são mencionadas em Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria. Afinal, ambos são filmes sobre mães num momento de profundo estresse, mas, mais do que isso, sobre duas mulheres que são desacreditadas exatamente por estarem no limite. Nenhum dingo, ou qualquer outro animal, pega a filha de Linda (Rose Byrne, premiada no Festival de Berlim por esse trabalho), mas a menina é consumida por uma doença misteriosa que a faz passar o dia todo no hospital, e a obriga a manter um tubo em sua barriga. Além disso, a mãe deve trocar a medicação durante a noite.

Linda é uma terapeuta que tenta manter os problemas longe de seu consultório, mas tudo desaba em sua vida, e seu próprio terapeuta (o apresentador Conan O’Brien se saindo muito em como ator) é incapaz de ajudar, pelo contrário, ele a hostiliza na maior parte do tempo. O marido da protagonista (Christian Slater) está numa viagem de trabalho, mas isso não o impede de dar ordens à mulher o tempo todo por telefone. E, para piorar, um buraco gigante se abriu no teto de um cômodo do apartamento, inundando todo o imóvel, o que a obrigou a se hospedar com a filha e os equipamentos médicos num pequeno hotel decadente. 

Escrito e dirigido por Mary Bronstein, que também interpreta uma médica, Se Eu Tivesse Pernas... é um olhar claustrofóbico sobre a maternidade, uma investigação sobre o eterno debate entre o tal instinto materno e a maternidade enquanto construção sociocultural. As mães no filme estão sempre atoladas de funções e obrigações que não deveriam ser exclusivamente delas. Caroline (Danielle Macdonald), paciente de Linda, é outra figura nessa mesma situação que encontra uma “saída” um tanto radical para suas aflições maternais. 

Bronstein, em seu segundo longa, mostra assombroso domínio da linguagem cinematográfica para criar angústia e ansiedade, transformando numa resposta formal o estado emocional de sua protagonista. A construção do som e da montagem causam desconforto na medida em que a mente de Linda se dissolve quando pedaços e mais pedaços do mundo despencam sobre ela. 

Sua filha, a menina adoentada, não é mostrada durante boa parte do filme - só ouvimos sua voz estridente, que demanda mais e mais coisas de sua mãe. O mesmo acontece com o marido, apenas uma voz no celular, e tido como centrado. Essa é uma ideia, aliás, bastante criticada pelo filme: filhos e pais são tidos como centrados, enquanto as mães são rotuladas de desesperadas, histéricas ou qualquer outra característica negativa atribuída as elas sem levar em conta a quantidade de responsabilidades e problemas familiares que são destinados exclusivamente a elas. 

Byrne sempre foi uma excelente atriz – especialmente em comédias, basta lembrar sua vilã em Missão Madrinha de Casamento. Mas até agora não havia tido uma personagem com a complexidade de Linda, uma mulher cuja estabilidade emocional se dissolve na tela diante de nossos olhos, enquanto ela torna crível cada movimento dessa protagonista, numa atuação que é um tour de force e a coloca na frente na corrida pelo Globo de Ouro e Oscar de Melhor Atriz. 

Muito se fala do trauma do nascimento, da perda do conforto e segurança do útero, quando a criança vem para o mundo e se sente desprotegida, uma marca que carregará para sempre em sua vida. Pouco se fala (ao menos, no cinema) do trauma de dar à luz, o fim de um ciclo. Se Eu Tivesse Pernas... olha exatamente nos olhos desse estado emocional perene, nas dificuldades e desafios de ser mãe, num mundo formatado pela estrutura do patriarcado, e o eterno medo de que um dingo pegue o seu bebê. 

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