20/07/2026
Drama Fantasia

A Fúria

Ex-militante político dado como morto, Mário ressurge para promover sua vingança contra os responsáveis por sua tortura e quase morte: Feijó, um ex-companheiro comunista e traidor, agora presidente da Câmara dos Deputados, e Salatiel, empresário e financiador das campanhas de Feijó. Nos cinemas.

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Do alto de seus então 93 anos, 70 de carreira, o cineasta Ruy Guerra fechou em grande estilo a competição de longas do Festival de Brasília 2024, trazendo seu aguardado A Fúria, drama político que encerra uma trilogia iniciada em 1964 com Os Fuzis, prosseguindo com A Queda (1976).

Dividindo a direção com Luciana Mazzotti, o veterano diretor, um dos últimos representantes vivos do Cinema Novo, resgata personagens dos filmes anteriores, um deles, Mário, que era então interpretado por Nelson Xavier - que morreu em 2017. Vivido agora por Ricardo Blat, aquele ex-militante que era dado como morto ressurge literalmente das entranhas da terra para promover sua vingança contra os responsáveis por sua tortura e quase morte: Feijó (Daniel Filho), um ex-companheiro comunista e traidor, agora presidente da Câmara dos Deputados, e Salatiel (Lima Duarte, repetindo seu papel dos filmes anteriores), empresário e financiador das campanhas de Feijó.

No momento, Feijó e Salatiel armam um complô para impedir a instalação de uma CPI das terras indígenas, que exporia negócios escusos do empresário. Do outro lado, está a deputada da oposição Petra Machava (Grace Passô), que lança uma candidatura concorrente para disputar a presidência da Câmara e luta para instalar a CPI.

Petra é uma das três figuras femininas importantes na história, ao lado da neta de Salatiel, Laura (Simone Spoladore), e de Monalisa (Lux Nègre), uma guerreira trans que luta, armada, nas periferias.

A questão indígena é crucial, não só pela CPI iminente quanto pela participação de Palavra (Urutau Guajajara), responsável pela salvação de Mário e também o disparador de uma flecha de alcance planetário, que tem sentido metafórico mas também literal, ferindo mortalmente o presidente fascista e ultranacionalista.

Imagens dessa sequência que mostra o presidente sendo atingido, aliás, haviam vazado do set em julho de 2022, ainda no governo Jair Bolsonaro, provocando manifestação do então ministro da justiça, Anderson Torres, no sentido de abrir um inquérito. Na época, a produção do filme divulgou nota destacando que as imagens haviam circulado “fora de contexto”.

Evidentemente, o filme não endossa qualquer forma de defesa de violência política, mas as semelhanças do presidente ficcional são evidentes a partir de seu visual, quase idêntico ao do ex-presidente Bolsonaro, visto em motociatas e emitindo slogans como “Deus, Pátria e Família” e “vamos acabar com a vermelhada”. Ao final dos créditos, ainda que colocados os habituais dizeres “qualquer semelhança com fatos ou pessoas reais será mera coincidência”, o público presente ao Cine Brasília em 2024 certamente vislumbrou a semelhança e teve uma reação catártica, aplaudindo entusiasticamente a cena, assim como o filme, ao final. 

Certamente, seria muito redutor limitar uma análise do filme a essa cena, sem dúvida provocativa, mas não se pode ignorar que o roteiro, assinado por Guerra, Mazzotti, Leandro Saraiva e Pedro Freire, vai muito além disso. A Fúria se constrói como uma parábola política que mergulha nas entranhas dos próprios mecanismos que sustentam a sociedade brasileira, não se esquivando de incluir na história um general (Roberto Frota) e um juiz do Supremo (Orã Figueiredo), sempre atuantes em maquinações que visam à manutenção no poder nas mãos da elite de sempre. 

Num filme dessa complexidade, elaborado ao longo de três anos, destaca-se também a fotografia excepcional de outro veterano, Luis Abramo - responsável pela construção de uma atmosfera expressionista, com seus claro-escuros, seus enquadramentos eventualmente deformantes e movimentos frenéticos. A montagem, assinada por Mair Tavares, Daniel Garcia e Renato Vallone, consolida essa sensação de vertigem à beira do abismo que o filme provoca, além de outras múltiplas sensações e reflexões. Não é pouca coisa também trazer a bordo atores que já nos deixaram, caso de Paulo César Pereio e Antônio Pedro, brilhando na tela pela última vez. 

Foi pena que o júri daquele festival limitou-se a dar ao filme apenas uma menção honrosa. Além disso, venceu o Troféu Saruê, concedido pelo jornal Correio Braziliense ao “melhor momento do festival”.

 

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