01/09/2026

Nos anos 1950, Marty Mauser é um jovem balconista de loja de sapatos no Lower East Side de Nova York. Filho de mãe viúva, ele luta para sobreviver mas não hesita diante de nada para tentar realizar seu sonho: tornar-se campeão mundial de tênis de mesa. Nem que, para conseguir dinheiro, tenha que recorrer a golpes. No Prime Video.

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Poucos protagonistas no cinema correspondem tanto à descrição de “camaleão” quanto Marty Mauser, o herói suspeito do filme Marty Supreme, estrelado por Timothée Chalamet - um ator que também cabe justinho na mesma definição. 

Com uma carreira iniciada com apenas 13 anos, em 1995, o ator, que acaba de completar 30, tem vivido todo tipo de papéis, de príncipe estelar em Duna a canibal em Até os Ossos, passando por Bob Dylan, que lhe deu sua segunda indicação a melhor ator, por Um Completo Desconhecido. A primeira indicação foi em 2018, como o jovem hesitante em sua paixão por um homem mais velho em Me Chame pelo seu Nome

Dito isso, Marty é uma espécie de personagem-caleidoscópio nele mesmo. Como se o ator condensasse nessa verdadeira contradição ambulante que ele é algumas das nuances de todos os seus papéis e algumas mais. E Timothée, que foi um dos produtores do filme dirigido por Josh Safdie, agarra com paixão esse turbilhão de Marty, um jovem e ambicioso balconista judeu de uma lojinha de sapatos no Lower East Side de Nova York nos anos 1950. 

Poderia se dizer que ele é um símbolo do velho e decaído sonho americano, mas isso não diria tudo. Marty é muito mais o símbolo de seu próprio sonho: vencer títulos internacionais em campeonatos de tênis de mesa, profissionalizando-se como campeão nesse esporte em que a agilidade tem que ser uma característica inerente e quase mágica. 

Conta-se que o ator praticou o esporte por sete anos e isso aparece na tela, em partidas de alta intensidade, em que mal se enxerga a bolinha quicando e trocando de lado. Evidentemente, a performance esportiva era essencial ao personagem, que está longe de se esgotar aí. Marty é um poço de contradições, uma metamorfose ambulante, como diz a canção. E, em vários momentos, um personagem difícil de gostar, este um risco calculado no enredo, inspirado na figura real do campeão de tênis de mesa Marty Reisman - cuja autobiografia, The Money Player, foi a base do roteiro, assinado pelo diretor Safdie e seu parceiro habitual, Ronald Bronstein.

De um lado, um personagem da classe proletária tão empenhado em superar os horizontes limitados que a realidade lhe impõe desperta uma irresistível simpatia. Marty quer muito mais do que o emprego de gerente da loja de sapatos que o dono, seu tio (Larry ‘Ratso’ Sloman), lhe promete, chantageando-o para que não deixe sua mãe viúva (Fran Drescher) - essa sim uma chantagista de marca maior, capaz de fingir problemas de saúde para que o filho não viaje para seus torneios.

As mulheres da vida de Marty trazem-lhe problemas - esse é o caso também de Rachel (Odessa A’zion), de quem ele gosta, mas casou-se com outro (Emory Cohen), o que não impede os dois de terem encontros sensuais vigorosos em lugares improváveis. A marca da repressão, familiar e sexual, dos anos 1950, insere-se assim no tecido da história, através dessas figuras femininas, o que termina sendo também um problema, até pela maneira como são tratadas. Marty é bem cruel com Rachel em mais de uma situação e ela reage sendo manipuladora, uma defesa natural de mulheres emdesvantagem. Mas talvez, em relação a ela, o filme tenha exagerado na dose.

Outra personagem feminina maltratada - mas não por Marty - será importante em sua vida. Trata-se de Kay Stone (uma surpreendente Gwyneth Paltrow), uma antiga estrela de cinema que largou a carreira para casar-se com um magnata das canetas, Milton Rockwell (Kevin O’Leary). A relação entre ela e Marty será fogosa e interessada, de parte a parte, com um preenchendo na vida do outro lacunas determinadas pelas escolhas equivocadas deles e que talvez seja tarde demais para corrigir. Kay, Marty e Rockwell jogarão juntos um perigoso duelo de poder, sensualidade, traição e vingança, em situações em que Marty, mais uma vez, prova que seu desejo de participar dos torneios não tem nenhum limite - nem mesmo a extrema auto-humilhação.

Pode-se desprezar Marty por isso e por seu trato das mulheres. Mas é inegável sua versatilidade para escapar de situações impossíveis, cometendo crimes, dando golpes e empreendendo fugas espetaculares para simplesmente sobreviver. E um pouco mais. Sua luta para ter um duelo final com o supercampeão japonês Koto Endo (o esportista real Koto Kawaguchi) é coisa de tigre, de animal superior, ainda que isso lhe custe a pele. Por essas e mais outras Chalamet quis tanto abraçar este papel, que já lhe valeu vários prêmios de diversas associações de críticos nos EUA, um Globo de Ouro, uma indicação no Sindicato dos Atores da América (SAG) e a terceira indicação ao Oscar de melhor ator. Que, por tanto esforço, ele merece.

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