A Miss é um filme repleto de boas intenções, e talvez por isso mesmo é uma pena que o resultado esteja tão abaixo de seu propósito nobre. O longa é escrito e dirigido pelo estreante Daniel Porto, e aí talvez esteja o ponto fraco do filme – era preciso um diretor ou uma diretora mais experiente para lidar com as possibilidades e nuances dessa história altamente contemporânea.
Questões de identidade e auto-aceitação estão em destaque na trama protagonizada por Iêda (Helga Nemetik) e seus filhos gêmeos Martha (Maitê Padilha) e Alan (Pedro David), com quem ela tem uma relação conturbada. Mãe solo, dona de um salão de beleza, Iêda parece não conseguir manter uma relação minimamente saudável com os filhos, que, por sua vez, também não suportam a mãe.
Tudo isso transita entre o humor e o drama de maneira truncada dentro do filme. A mão pesa nas cenas mais dramáticas, a ponto de não conseguir encontrar um respiro em algum humor que poderia aliviar a situação. Quando este aparece está quase sempre mal encaixado – muitas vezes na figura do personagem Athena (Alexandre Lino), funcionário homossexual-clichê do salão de Iêda.
Entre os abusos que ela promove contra os filhos está em obrigá-los a participar de concursos de beleza. Algo que a garota abomina, e se sente sufocada, não sem razão, pela mãe. Alan, por sua vez, revela-se a pessoa ideal para realizar o sonho da mãe. Ele gosta de se vestir com as roupas da irmã e tem talento para o desfile. Com a ajuda de Athena, a dupla arma um plano para participar de concursos de beleza. Aliás, colocar esse tipo de evento em destaque a essa altura sem, ao menos, problematizar, é mais um dos problemas aqui.
A identidade de Alan é mais complexa do que o filme mostra. Por mais esforçado que o ator Pedro David seja, o roteiro não se importa muito em mergulhar em seu universo, em transformá-lo em uma figura tridimensional. Dessa forma, ele funciona mais como um panfleto do que como um ser humano dentro do filme. Uma pena, pois, além dele, Helga e Maitê se revelam, também, duas atrizes competentes, mas sem muito o que fazer com suas personagens rasas incapazes de ir além do sentimento de se odiarem mutuamente.
