A genialidade de São Paulo Sociedade Anônima, longa escrito e dirigido por Luiz Sérgio Person, já vem de seu título, colocando a cidade de São Paulo como uma empresa de capital dividido em ações, na qual, a grosso modo, o poder de cada sócio ou acionista depende da quantidade de ações que possuem. No filme, todos moradores e moradoras da cidade seriam os donos e donas das ações, mas, claro, alguns têm mais – muito mais – que outros.
Carlos (Walmor Chagas), o protagonista, é um sujeito comum moído pela máquina da industrialização paulista do final dos anos de 1950 e começo da década seguinte – período em que se passa a ação do filme. Carlos é um trabalhador, mas não operário. Ele começa como um funcionário comum de escritório comercial, que vira Inspetor de qualidade de uma grande indústria automobilística e, posteriormente, executivo de uma fábrica de autopeças em ascensão. Talvez pense estar mais próximo da burguesia do que da esfera da esfola, e essa alienação é o seu grande mal que o filme capta em sua forma, muitas vezes distanciada, se aproximando do documental.
O filme foi lançado em 1965, e começou a ser rodado pouco depois do golpe de 1964, o que faz dele um curioso documento sobre um momento de incertezas no qual a opressão, a cessão de direitos e tudo o que veio com a ditadura civil-militar brasileira começava a se cristalizar. O protagonista, por sua vez, sedimenta um caráter trágico, materializa a ascensão social – industrial, no caso do Brasil – e o declínio moral que advém desse movimento.
Person, com a bela fotografia de Ricardo Aronovich, e a montagem precisa de Glauco Mirko Laurelli, realiza um dos filmes mais contundente da filmografia nacional em sua capacidade de observar de maneira crítica aquilo que o filósofo húngaro Georg Lukács apontou como reificação, quando o próprio ser humano se torna uma mercadoria, vendendo sua força de trabalho, e a lógica capitalista se embrenha nos processos psicológicos e sociais, e no próprio cotidiano das pessoas.
O casamento com a doce e submissa Luciana (Eva Wilma) pode ser mais lucrativo. Eles se conhecem numa aula de inglês para executivos, um indício da ambição do protagonista. O preço da ascensão pessoal – também o do progresso de uma cidade – está em se reificar – ou, em palavras mais populares, vender a alma ao diabo. E Carlos o faz sem qualquer pudor – assim como a empresa-cidade São Paulo. Numa outra ponta está Ana (Darlene Glória), uma mulher que não oferece tantas oportunidades a Carlos, enfim, uma mercadoria de baixo valor.
Mais de meio século depois, São Paulo Sociedade Anônima mantém sua força pois seu retrato da cidade e seus habitantes aponta como as coisas mudaram para continuar as mesmas. O filme mostra os elementos estruturais dessa selva de pedra que se mantêm, ou se repõem, toda vez que os ventos da mudança entremeiam essa selva de pedra.
