Três fantasmas que evocam pesadelos crônicos da realidade brasileira assombram o documentário A Vida Secreta de Meus Três Homens, em que a diretora Letícia Simões resgata três figuras masculinas fundamentais de sua vida: o pai, Fernando, o avô, Arnaud, e o padrinho, Sebastião.
A cineasta, que em filme anterior, Casa (2020), investigou duas figuras femininas de sua família, a mãe e a avó, aqui completa esse quadro familiar indo mais longe, ao incorporar as dinâmicas da vida dos três homens, que estão profundamente imbricadas no funcionamento de algumas distopias do próprio País.
Optando por escalar atores para viver os papéis de seus protagonistas, a diretora injeta uma energia mais vital nos relatos, que se entrelaçam. O avô Arnaud (Guga Patriota), conta sobre seu envolvimento com o cangaço quando, ainda menino, tomou a si a vingança contra abuso sofrido por sua irmã. Mais relutante é o pai, Fernando (Giordano Castro), ao ser confrontado pela narradora (Nash Laila), sobre as verdades e mentiras em torno de sua provável colaboração como delator ao SNI (Serviço Nacional de Informações) durante a ditadura civil-militar de 1964 - reproduzindo, de fato, a ambiguidade sobre um assunto que não pode ser completamente comprovado, até devido às circunstâncias clandestinas desse trabalho.
Finalmente, Sebastião (Murilo Sampaio), o padrinho negro e gay, revela uma trágica história de amor que termina com um fatal ataque homofóbico - resgatando os ecos de uma situação não superada num país em que se matam muitos homossexuais.
Colocar estes personagens falando em primeira pessoa torna, ao mesmo tempo, a história deles mais viva, pulsante e também intimista, como um álbum de retratos que inusitadamente ganhasse corpo e alma. A participação eventual da diretora explicando detalhes destas histórias, convocada pelos atores, da mesma forma contribui para que outros fios sejam amarrados entre uma situação e outra, fechando o arco que o filme pretende construir, entre o pessoal e o social, entre o privado e o público.
A diretora também recorre a algumas fotos - especialmente do padrinho, que era fotógrafo - como material de apoio, mas confia mais nestes relatos redivivos para procurar algumas verdades desta investigação que expande sua esfera pessoal para um retrato que abarca algumas das contradições e crueldades mais candentes do próprio País.
O documentário teve sua première na Mostra de Tiradentes 2025 e também foi selecionado para o Cine BH, o Hot Docs e o RIDM de Montreal.
