O austríaco Mother’s Baby é um caso curioso: um filme de terror com receio de abraçar o horrífico de vez. Tema corrente do cinema – como o recente Se eu tivesse pernas, eu te chutaria –, a maternidade pode ir desde o drama das descobertas ao horror das mesmas, tudo é uma questão de tom, e a roteirista e diretora Johanna Moder passa o tempo todo em busca de o acertar.
Transitando entre a comédia sombria e o terror, ela para antes de chegar no clímax, para onde o filme caminha de forma efetiva e orgânica. A experiência da maternidade chega aqui cercada de expectativas e, quando elas não são cumpridas, a protagonista se perde numa paranoia que a consome de forma gradativa.
Julia (Marie Leuenberger) e Georg (Hans Löw) são um casal de meia-idade e classe média alta, graças ao sucesso dela como condutora de uma orquestra. Para, eles, no entanto, a felicidade só estará completa se tiverem um filho e, para isso, recorrem ao simpático Dr. Vilfort (Claes Bang), dono de uma clínica elegante e cara, que consegue fazer Julia engravidar. O parto, no entanto, não é como planejado, e o bebê é levado para outra sala, passando algumas horas longe da mãe, o que causa um desconforto a ela.
O reencontro entre mãe e filho faz surgir nela uma suspeita: esse bebê é mesmo o que ela gestou ? A paranoia de Julia se intensifica, enquanto, para as pessoas ao redor, não há nada de errado. É algo à la O Bebê de Rosemary, sem que o filme vá fundo nos horrores da depressão pós-parto e da solidão de sua protagonista, que se materializa numa atuação potente de Leuenberger.
Os estranhamentos do filme não são poucos, como a presença de axolote, um tipo de anfíbio mexicano conhecido por sua enorme capacidade de regeneração. A presença do animal no longa causa desconforto, mas, até certo ponto, é uma imagem, ao mesmo tempo comum e particular, numa dualidade que caberia muito bem a Mother’s Baby, mas que Moder não se interessa em investir a fundo.
