A Graça, de Paolo Sorrentino, abriu o Festival de Veneza 2025 com uma história em que o experiente diretor italiano mostra querer voltar às origens.
Este novo filme se parece bem mais com o premiado e ambicioso A Grande Beleza (2013) do que com outras produções mais recentes e menos bem-sucedidas - caso de Parthenope: Os Amores de Nápoles, que participou de Cannes em 2024, um filme de intensa beleza visual mas bastante vazio.
É um Sorrentino mais reflexivo que retorna em A Graça, com um roteiro assinado por ele mesmo, em que retoma a parceria com seu ator-fetiche, Toni Servillo - e que está muito à vontade na pele de um presidente da república, Mariano de Santis, em seus últimos seis meses de governo. Um personagem político, mas bem diferente do que o mesmo ator viveu em Il Divo (2008), em que interpretava o corrupto ex-primeiro ministro Giulio Andreotti.
Aqui, o protagonista encarna uma problemática sensível ao próprio diretor, a da maturidade, com um olhar para o passado, debruçando-se sobre as perdas e os arrependimentos sem encontrar consolo, já que não compreende nem aceita inteiramente tudo que se passou.
A história de amor no centro do enredo é a paixão de Mariano por Aurora, sua esposa que morreu há oito anos. É portanto um amor in absentia, em que Mariano se relaciona com uma lembrança e também com uma obsessão - a traição de Aurora com alguém cuja identidade ele desconhece mas procura sempre descobrir.
Não deixa de ser curiosa, ou talvez reflexo de uma natureza masculina tradicional - afinal, Mariano é um homem idoso - essa paixão por uma mulher ausente, idealizada talvez, mas mesmo assim, remetendo a uma lembrança contaminada de raiva. Culpa também, ao que parece.
Vencedor do prêmio de melhor ator no festival, Servillo entrega uma interpretação compassada e segura, como um presidente que contempla a própria aposentadoria - foi juiz e jurista antes - e parece amado por seu povo, mas está cansado de todos os rituais e burocracias do poder. Ao mesmo tempo, é confrontado não só pelas próprias dúvidas e obsessões como pela própria filha, Dorotea (Anna Ferzetii), sua assessora e uma espécie de consciência viva e sempre questionadora.
Duas decisões assombram seu final de mandato - a escolha de a quem conceder uma anistia entre dois criminosos condenados por homicídio, e se assina ou não uma lei de eutanásia que há muito parte da sociedade e a filha lhe cobram - ao passo que o Papa (Rufin Doh Zeyenouin), seu amigo, pressiona evidentemente num sentido contrário. Um papa, aliás, muito especial: negro, com um penteado de longas tranças afro, brinco na orelha e que parte de um encontro com Mariano pilotando uma motocicleta.
Toda essa problemática é filmada com muitas nuances e riqueza de detalhes, que permitem penetrar na psicologia algo saudosista de Mariano - que tem como maiores amigos ainda dois ex-colegas de escola, Ugo Romani (Massimo Venturiello), ministro da Justiça, e Coco Valori (Milvia Marigliano), uma crítica de arte de língua ferina.
A relação de Mariano com os filhos - há um outro, músico, Riccardo (Francesco Martino), que vive no Canadá -, com o assistente direto, Labaro (Orlando Cinque), seu fiel escudeiro, e os demais membros do governo enfatiza sua grande solidão, que é a solidão do poder mas também de um homem com dificuldade de tomar decisões - e que denota também uma certa falta de coragem para encarar a vida e seus próprios dilemas, como a traição dessa mulher, que ocorreu há 40 anos e ele não consegue superar, nem mesmo depois da morte dela.
Enfim, A Graça é um filme com muitas camadas, que faz justiça ao talento de seu protagonista e do diretor e não é, felizmente, desprovido de humor - a começar pelo peculiar gosto musical do presidente, capaz de entoar um rap com muita dedicação.
