Várias precariedades sobrepostas embasam este drama sutil de Iván Fund, A Mensageira. É a história de uma infância, no caso, a de Anika (Anika Bootz), menina de 7 anos que leva uma vida itinerante com seus supostos pais, Myriam (Mara Bestelli) e Roger (Marcelo Subiotto).Todos os três vivem pelas estradinhas mais remotas do interior argentino, numa caminhonete que lhes serve de casa, sobrevivendo do dom místico da menina, que teria a capacidade de comunicar-se com os animais, inclusive os recentemente falecidos.
A fotografia em preto-e-branco ajusta-se à perfeição neste despojamento de uma gente que parece viver com muito pouco, sem maiores dramas e conflitos. Há muita ternura e algum humor nas relações do trio, em que não transparece uma denúncia de exploração, antes a exposição de uma precariedade econômica e social que não evidencia outro caminho à vista.
Boa parte do filme, que venceu o Urso de Prata (Prêmio do Júri) no Festival de Berlim 2025, transcorre entre planos longos e silêncios, onde se vê simplesmente a menina existindo, entre seus livros de colorir, brinquedos e interações com a natureza e com animais tão distintos quanto cachorro, cavalo, capivara e gato, alguns doentes e com os quais seus tutores procuram uma forma de comunicação. É neste espaço que opera a menina, cujos serviços são intermediados por Myriam e Roger, sem perder de vista o cuidado com ela, ainda que se possa colocar em questão que tipo de infância pode ser vivida neste modo de vida mambembe.
As razões para tudo isso serão explicadas adiante, quando o trio visita uma clínica de saúde mental, onde se encontra outro membro da família: Eloísa (Betania Cappato). É aí que se deslindam os laços entre todos e se explica a adesão a esta vida precária, em que as escolhas estão sujeitas a um certo determinismo do qual parece difícil escapar. O tom da direção nunca procura um julgamento destes personagens, mostrando um genuíno interesse no que fazem e como o fazem, o que evidencia um modo de vida em que eles parecem acreditar mas deixa em aberto que tipo de futuro pode haver aí.
Diretor reconhecido por seus trabalhos anteriores, como Los Lábios (Un Certain Regard 2010) e Piedra Noche (Jornada dos Autores de Veneza 2021), Iván Fund aprofunda uma trajetória que esquadrinha a crise econômico-social argentina sem deixar de contemplar um espaço à afetividade e à fantasia, pedras lapidares de seu estilo de narrativa.
