Como qualquer brasileiro ou brasileira sabe, a mensagem dos extraterrestres, sejam de Varginha, Corguinho, Campo Largo ou Roswell, é só uma: Busquem conhecimento. Steven Spielberg está ciente disso, e sua nova extravagância cinematográfica mostra que a verdade, ao contrário do que sustentava a série Arquivo X, está aqui dentro. Depois de definir, quase 50 anos atrás, o gênero cinematográfico dos contatos imediatos de terceiro grau, o diretor volta ao tema com Dia D, mas sem causar o mesmo espanto e encantamento, embora seu espetáculo tenha lá sua dose de empolgação.
Eles estão entre nós, mas o governo dos EUA – afinal, no filme, tudo só acontece lá – não quer que saibamos. Talvez, o longa tenha mais a ver com os Arquivo de Epstein do que com aliens, afinal a grande revelação (como já indica o título original) está ligada a tornar informações públicas, pois as pessoas têm o direito de ter acesso a elas, para depois decidirem o que fazer. A primeira grande informação a ser revelada tem a ver com um vídeo de abusos físicos contra alienígenas capturados, o que causa revolta e comiseração em todos que veem as imagens. Curiosamente, medo é um sentimento que não existe.
Depois de passar anos preso por ser hacker, e de trabalhar como especialista em segurança numa ONG, Wardex, que atua para esconder esses vídeos, Daniel Kellner (Josh O’Connor) acredita, com toda pureza e nobreza de coração, que todo o mundo deve ter acesso a essas imagens. Ele conta com a ajuda de um ex-colega de organização, Hugo (Colman Domingo).
Por outro lado, Noah Scanlon (Colin Firth), ex-chefe de Daniel, o persegue para conseguir os arquivos, dos quais ele cuida desde 1973, e agora estão armazenados em pendrives. Esses dispositivos são modernos e transparentes, mas não tanto quanto uma pequena barra, aparentemente de ferro, que permite a Hugo, quando a segura com força em uma mão, entrar dentro da mente de uma pessoa e conversar com ela ou a levar a cometer ações.
Nesse mesmo tempo em que tudo isso acontece, Margaret Fairchild (Emily Blunt), garota do tempo de um canal local em Kansas, tem um estranho encontro com um cardeal totalmente vermelho que invade seu apartamento. Depois de trocar alguns segundos de olhares fixos com a ave, o animal é expulso pelo namorado dela, Jackson (Wyatt Russell). A partir desse momento, ela é capaz não só de falar línguas, como também ler os pensamentos das pessoas. Ao entrar no ar, ela não diz se irá chover ou fazer sol, mas começa a fazer estranhos cliques com a boca, que só Daniel conseguirá compreender.
A partir dessas duas pontas, Spielberg e o roteirista David Koepp, a partir de uma história criada pelo próprio diretor, mergulham em teorias da conspiração e elementos da tradição católica que pautam o filme. Jane (Eve Hewson), namorada de Daniel, é uma ex-noviça que o esconde no seu antigo convento quando ele é perseguido por Hugo. Ao ter acesso sobre a verdade (do filme) sobre os alienígenas, ela questiona o namorado se está certo de mostrar isso para o mundo todo, pois ao ter a confirmação de existência de vida extraterrestre, as pessoas deixarão de acreditar em Deus.
Não há dúvidas de que Spielberg se embrenha por mitologias e crenças cristãs para dizer o que significam os alienígenas. A Segunda Vinda, se assim podemos dizer, trará o salvador num corpo de outra espécie. Ao mesmo tempo, Dia D sustenta que os cristãos de verdade não duvidarão da sua fé, como a madre superiora Laura (Elizabeth Marvel), crendo que todos são criaturas de Deus, sejam da Terra ou de lá de onde for.
As discussões sobre esses temas são abundantes e servem aos propósitos da narrativa, mas, como é comum nos filmes de Spielberg, dois elementos se materializam. O primeiro deles são os personagens, incapazes de exibir mais de uma emoção. Como sempre, são figuras dotadas de um único sentimento que, geralmente, expressam um símbolo. E, como não poderia deixar de ser, outro elemento caro ao cineasta: isso tudo está ligado à infância – e aqui mostrado sem qualquer sutileza, afinal, sutileza nunca foi o forte do diretor.
No trailer do filme, o próprio Spielberg aparece dizendo que acredita na existência de alienígenas mais do que na época em que fez Contatos Imediatos de Terceiro Grau, e não há dúvida de que fala isso de todo o coração. Fica claro que ele realmente acredita nessas histórias, o que não significa que ele consiga, com o novo filme, convencer as pessoas de suas crenças.
