No cenário exíguo de um apartamento, dois casais vivem uma noite inesquecível - por vários motivos. Este é o mote de O Convite, terceiro longa de Olivia Wilde, que também integra o quarteto de refinados atores que sustentam, por 1h47, o duelo que os revela mutuamente de corpo e alma.
A noite começa tensa, com o dono da casa, Joe (Seth Rogen), chegando com uma terrível dor nas costas. Enquanto ele se deita no chão para aliviar-se, recebe da mulher, Angela (Olivia Wilde) a notícia de que estão para receber o casal de vizinhos do apartamento de cima, Pina (Penélope Cruz) e Hawk (Edward Norton) - curiosamente, os mesmos cujos gritos de prazer têm transformado suas noites num inferno. Então, por que Angela os convidou?
A partir daí, tudo é questionamento e confusão, começando pela chegada dos convidados. Angela quer manter as aparências de boa anfitriã, Joe quer chutar o pau da barraca reclamando do barulho noturno. De fala em fala, o precário equilíbrio vai desabando, desmontando as defesas e segredos de todos os envolvidos. Sim, Pina e Hawk, tão desinibidos, também têm a sua carga emocional para lidar.
Inspirado no filme espanhol Sentimental (2020), de Cesc Gay, o roteiro de Will McCormack e Rashida Jones vai dando munição a que estes excepcionais atores montem suas histórias, funcionando como uma peça de teatro, num cenário limitado aos cômodos do apartamento e centrando sua energia em diálogos ferinos, disparados como setas.
A crueza deste confronto lembra, de algum modo, Deus da Carnificina, de Roman Polanski, só que impregnado de uma diversa tensão sexual que, num determinado momento, passa pela sugestão de uma troca de casais. A hábil estrutura montada pelo roteiro, a fotografia e a montagem permitem uma economia narrativa que explora a alternância de emoções e não se furta a expor o reverso dos vexames que se acumulam pelo caminho.
Nem por armar confrontos entre conservadorismo e ousadia em várias situações a história perde a chance de humanizar seus protagonistas, enraizando seus dramas matrimoniais num contexto não-maniqueísta, julgador, muito menos elegendo vencedores e vencidos. Se há uma qualidade neste que é o filme mais maduro de Olivia Wilde é capturar muitas facetas da experiência humana abrindo espaço também à empatia e à compaixão, passando por altas doses de um bem-vindo e sarcástico humor.
A notável complexidade que se atingiu nesta comédia dramática saudavelmente adulta tem mais de uma explicação. Uma delas é a diretora e os roteiristas terem contado com a assessoria da psicoterapeuta Esther Perel, de quem Olivia Wilde foi paciente. Sucessivas conversas dos roteiristas com ela e também de Penélope Cruz - que no filme interpreta uma terapeuta que é inspirada em Esther - nutriram a história de muitos detalhes que alimentam sua autenticidade, desenvolvida também em improvisações dos atores ao longo do processo.
