Competente tanto no campo da denúncia quanto da investigação e interesse humano, o documentário Pau D'Arco, da jornalista Ana Aranha, é um soco em forma de cinema. O foco está num massacre na cidade de Pau D’Arco (PA) em 2017, que segue impune até hoje. Dez trabalhadores rurais sem-terra – nove homens e uma mulher – foram brutalmente assassinados, em uma ação praticada por policiais militares e civis daquele estado.
O cenário era a Fazenda Santa Lúcia, na divisa entre o Pará e o Amazonas, onde um grupo reivindicava o espaço para plantar. A fazenda improdutiva pertence a uma família de latifundiários. Supostamente, teria havido um confronto entre os trabalhadores e os policiais, o que resultou nas mortes.
Conforme mostra o longa, porém, a realidade é mais complexa. A versão oficial é desmantelada por sobreviventes e pessoas que se aliam a eles, como a própria diretora, o advogado José Vargas Júnior, e Fernando, um dos sobreviventes. As entrevistas revelam uma teia de intrigas e mentiras que foi armada para encobrir o crime.
Resgatar essa história é fundamental, e o filme o faz de maneira muito contundente. A luta de Fernando e Vargas contra um sistema feito para, no mínimo, silenciá-los, é potente e, cinematograficamente, também muito forte. Num mundo marcado por violência e desigualdade, o direito à terra deixa de ser um direito e se torna uma batalha injusta entre um lado fragilizado e outro com todo o poder.
Fernando é uma figura simpática, bom de conversa, cativante e divertido. Suas falas são marcadas pelo trauma, mas também pelos sonhos de um futuro melhor, de ter sua casa e sua terra. O filme é dominado por ele. “Trabalhei com gente rica que tem mais perturbação do que nós, que é pobre”, diz.
A experiência da diretora como jornalista investigativa dá o tom ao documentário, que mesmo com sua proposta de denúncia evita cair numa espécie de proselitismo, apoiando-se no material humano, o que dá força ao longa. Fernando e Vargas são corajosos e enfrentam os inimigos. A mulher e filhas do advogado, por exemplo, precisaram mudar de cidade devido às constantes ameaças que ele recebe. No meio do caminho, Vargas é acusado de ameaçar de morte uma pessoa por conversas em celular com um colega. Era na verdade, um diálogo, claramente, em tom de brincadeira, mas um juiz, o mesmo que julgava o caso do massacre, pediu a prisão do advogado.
O filme segue esses meandros que se abrem em torno do episódio complexo, que começa com a chacina. Ana faz um trabalho de investigação bastante fundamentado e sólido. O resultado é um filme relevante, forte e comovente no seu retrato de uma luta que parece não ter fim.
