Margeado é um filme que toma para si o movimento do tempo. Não há pressa na construção de sua narrativa, no seu encadeamento de fatos, mas isso não quer dizer que seja exatamente parado. Trata-se de um filme que se recusa à histeria temporal e imagética de um cinema picotado que joga tudo na tela de forma quase aleatória, que faz alguma espécie de sentido apenas para quem o realizou.
Um filme que pede imersão precisa oferecer condições para tal, e é exatamente o que ocorre no longa escrito e dirigido por Diego Zon. A movimentação da natureza, ora exuberante, ora destruída, guia a condução da narrativa, que se passa num vilarejo de pescadores cujo futuro é incerto após o rompimento de uma barragem. Um rio dividido entre a água azul cristalina e a lama resultam num plano impressionante que encerra o prólogo.
A tensão entre a modernidade e a natureza é marcada pela exploração desenfreada de ambas. Tanto o rio, quanto velhos aparelhos eletrônicos, foram explorados até a obsolescência – uma, como um assassinato da natureza, outra, programada, mas ambas devastadoras do ponto de vista da sobrevivência.
Há algo de Pedro Costa – embora sem a mesma radicalidade – na encenação, nos tempos dos diálogos e das construções de personagens e situações. O ator Antônio Pitanga interpreta um homem que morreu, mas temos a chance de ouvir um longo monólogo seu, saberes que são transmitidos. O Brasil de hoje, mais do que cenário, é a causa e a consequência de atos. Margeado é capaz de compreender isso, e figurar o país em que vivemos, o momento que atravessamos e do qual ainda somos herdeiros diretos.
