17/06/2026
Comédia

Diabo a Quatro

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A anarquia como forma de arte sempre foi a cara dos irmãos Marx. Nada melhor, portanto, do que ver Groucho, Chico e Harpo em ação numa sátira política que, ironicamente, foi um dos poucos fracassos comerciais de sua carreira. No ano de seu lançamento, 1933, em plena Depressão, talvez as platéias não estivessem preparadas para a trituração impiedosa que Groucho faz da figura de um líder. O fiasco crítico e comercial foi tão grande que a trupe teve de mudar-se de estúdio, indo da Paramount para a MGM. Mas quem riu no fim foram mesmo os irmãos, pois o filme foi redescoberto anos depois e é considerado hoje um dos melhores trabalhos do quarteto - aqui, ainda aparece Zeppo, o irmão Marx mais discreto, e do qual ninguém sentirá falta depois.

Num país abalado pela falência comercial e a incompetência de sucessivas administrações chamado Freedonia, escolhe-se como governante Rufus T. Firefly (Groucho). Como era de se esperar, ele chega ao poder menos pelas qualidades de estadista, que ele não tem, do que pela descarada azaração que joga para cima da maior milionária do país, a viúva Gloria Teasdale (Margaret Dumont). Sem credencial alguma para resolver a crise de Freedonia, ele passa o tempo comendo bem, flertando com todas as mulheres e arrumando confusão. A maior delas, uma guerra completamente desnecessária com o país vizinho, Sylvania, por ofender um embaixador (Louis Calhern) que, aliás, tem uma agenda secreta em relação a Freedonia.

Anos de estrada no teatro vaudeville esculpiram o ritmo frenético destes irmãos para comandar comédias demolidoras como essa, que não perdem o pique um minuto. Groucho, com sua metralhadora verbal, não desperdiça um diálogo. E Harpo, sem dizer uma palavra, não é menos eficiente na tarefa de desarmar qualquer ordem que encontre à sua volta. Um momento impagável envolvendo os dois está na seqüência do espelho quebrado, na qual Harpo, vestido exatamente como Groucho, tenta convencê-lo de que o espelho ainda está lá, imitando-o. Groucho, desconfiado, tenta pegar sua "imagem" no pulo, escondendo-se e saltando diante do espelho inexistente de todos os lados.

E para quem achar que o filme não passa de brincadeira, é bom anotar a frase do crítico britânico Patrick McCray: "Como um ensaio absurdo sobre política e guerra, Diabo a Quatro pode ser classificado no mesmo nível (ou até acima) dos trabalhos de Beckett ou Ionesco". Mesmo sem a menor intenção, os irmãos Marx mostraram o quanto humor pode ser coisa séria.

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