Marília Pêra era uma artista plural. Não apenas atuava, mas cantava e dançava, fazendo diversos espetáculos musicais. Sua marca no teatro, cinema e televisão persistirá. O documentário Viva Marília, dirigido por Zelito Viana, e codirigido por Esperança Motta, filha da artista com Nelson Motta, que, por sua vez, assina o roteiro, é uma hagiografia bem intencionada, é óbvio, mas que não consegue escapar de um formato quadrado para falar que uma personalidade que era moderna.
Partindo de uma série de entrevistas dela ao longo de sua carreira, e resgatando imagens de diversos trabalhos seus, o filme ressalta o talento de Marília, entrando um pouco em sua vida pessoal, falando de passagem dos casamentos, e um pouco mais dos filhos. Mas deixa de lado polêmicas que envolveram sua trajetória, por exemplo, quando ela sofreu represálias, inclusive na porta do teatro, por apoiar o candidato Fernando Collor de Mello, na eleição de 1989, ou o burnout enquanto gravava a novela Supermanoela, 1974, pediu para sair da produção, e como “punição” ficou afastada das novelas por quase 15 anos.
Viva Marília é rico no material que traz, contando a história da artista desde a infância. Filha de um ator de teatro português imigrado para o Brasil, ela estreou nos palcos com apenas 4 anos, com os pais, que faziam parte da companhia de Henriette Morineau, na qual chegou a fazer uma das filhas de Medéia. No teatro fez personagens como Carmem Miranda, Coco Channel e Maria Callas.
Como é codirigido por sua filha, não é de se estranhar que seja uma carta de amor à artista, com alguns depoimentos bastante sinceros, colhidos ao longo da trajetória. Ela conta, por exemplo, que se sentiu “enganada” por Walter Salles para fazer Central do Brasil. Segundo Marília, o cineasta disse que as duas personagens femininas tinham o mesmo peso, mas quando ela leu o roteiro, percebeu que ficaria fora de cena a maior parte do filme. Ainda assim, topou fazer, pois queria trabalhar com Fernanda Montenegro e Salles. E, de qualquer forma, sua participação pode ser pequena, mas é marcante, e serve como um alívio cômico num filme tão melancólico.
