A comédia de terror nacional Furnas Fundas: Uma Fábula Gótica Brasileira começa tão vigorosa em sua sátira política que é difícil imaginar que conseguiria manter o tom lá em cima por suas duas horas. Ainda assim, o saldo é positivo na inventividade e espírito anárquico desse filme dirigido por Beto Marquez, com roteiro de Antonia Baudouin, a partir de um conto original de Reinaldo Moraes.
O elenco é outro ponto alto do filme, todos e todas muito bem afiados e afiadas transitando entre os gêneros. Otávio Müller é Marcão, candidato populista tentando a reeleição. Natalia Lage é Rosália, mulher dele, que, após descobrir uma traição, assume o papel da oposição, que era exercida por um padre morto de forma misteriosa. Já Gabriela Dias é Bartira, agente funerária e uma espécie de bêbada local, que está sempre acompanhada de seus amigos marginalizados.
Em meio às campanhas – cada vez mais baixas – da disputa eleitoral, uma nova face do horror surge cidade: Kesabel (Eriberto Leão), a quem Rosália insiste em chamar de Carlos Alberto. Vampiro centenário, ele está prestes a trazer à vida um líder que está nas trevas.
Na direção segura de Marquez e na fotografia caprichada de Paulo Vainer (que trabalha com o colorido e o preto-e-branco), Furnas Fundas: Uma Fábula Gótica Brasileira tem algo a dizer sobre o estado das coisas no Brasil, assombrado por processos eleitorais e elites vampirescas sempre prontas para darem seus apoios aos políticos em troca de benefícios. E, se, por um momento, tudo no filme parece muito óbvio, sua picardia compensa suas ingenuidades.
