A verdadeira estrela de Coração Selvagem (não confundir com o filme homônimo de David Lynch) é o cachorro Uber, que no longa se chama Odin. Um pastor alemão originário da Nova Zelândia, o ator canino tem próteses de titânio na mandíbula e perdeu uma de suas pernas – que também foi substituída por próteses. Assim sendo, ele não pode ser substituído por outros animais, como é comum, nas filmagens. Seus filhotes fizeram seu papel em flashbacks.
Ao lado dele, Brad Pitt se destaca com uma atuação precisa, mas o filme de David Ayer nem sempre o favorece, com uma história de fundo óbvia que cai numa patriotada militarista sempre muito problemática. Em rápidos flashbacks, vemos o personagem, James Belmont, soldado das Forças Especiais, agora reformado, numa guerra, provavelmente no Afeganistão, fazendo, entre outras coisas, o resgate de um bebê. Precisava disso?
No presente, o filme funciona melhor, quando Belmont e Odin estão repletos de cicatrizes físicas e emocionais. O cachorro chega a ter pesadelos com a época em que era um cão de resgate no conflito, onde seu tutor o conheceu, e depois o adotou quando ambos deixaram as forças armadas, e agora aproveitam uma viagem feita num pequeno avião conduzido pelo próprio Belmont numa região montanhosa e isolada. O longa foi rodado na Nova Zelândia.
A ideia era ficar sem companhia humana, mas o caminho deles se cruza com um estranho (interpretado por um quase irreconhecível J.K. Simmons), que logo se revela amigável. Essa é a única companhia humana que a dupla encontra, e, depois de aproveitar o lugar por um tempo, Belmont percebe que uma tempestade se aproxima, e decide ir embora. No avião, no entanto, ele sofre um pequeno infarto, perde o controle, e os problemas começam.
O filme de Ayer é impressionante em sua precisão e em seu retrato dos desafios que Belmont e Uber enfrentam, sejam das condições naturais ou animais selvagens, entre outros problemas. Conhecido por seus filmes de ação duros de uma atmosfera muito macho, como Resgate Implacável, Beekeeper: Rede de Vingança e Marcados para morrer, o diretor muda de estilo e de tom aqui, numa bem-vinda história menos acelerada, e num tom totalmente diferente de seus longas anteriores.
Os laços de afeto entre Odin e seu tutor são sinceros e muito bem construídos na tela. Dá para sentir Belmont apaixonado pelo canino ou aflito em momentos de maior perigo. Pitt está bem em cena como não estava há muito tempo, mas não há dúvida, o filme é de Uber.
