- Por Neusa Barbosa
- 19/11/2003
- Tempo de leitura 2 minutos
Em seu primeiro trabalho para o cinema, a sempre anárquica turma da Casseta & Planeta investe pesado na demolição de dois traumas nacionais: a ditadura militar (1964-84) e o roubo da Taça Jules Rimet, símbolo da conquista do tricampeonato mundial de futebol, em 1970. Vistas pela ótica da trupe irreverente, os dois temas viram motivo de muitas piadas e são devidamente exorcizados, como deve acontecer aos vexames de um país. Não sobra pedra sobre pedra, nem da imagem assustadora dos militares que tiraram o sono de tanta gente, nem dos militantes da esquerda que se arriscaram na guerrilha, como Che Guevara - repaginado por Cláudio Manoel, o seu Creysson da televisão -, ídolos da MPB como Roberto Carlos (encarnado por um Hubert vesgo e de sorriso implacavelmente forçado) e muitos outros ícones dos anos 70. Alguns pagaram o mico de encarnarem a si mesmos numa paródia, caso de Toni Tornado depois de um revival de seu sucesso BR-3 e dos jogadores tricampeões Carlos Alberto e Jairzinho. Pelé, convidado, não tinha data na agenda para participar das filmagens, mas é devidamente reciclado por um Helio de la Peña que não descuida de um fio do inconfundível penteado e da entonação às vezes hesitante do Rei do Futebol.A boa notícia sobre o filme é que os mais bem-sucedidos comediantes do país não repetiram seus personagens do programa semanal de TV - como aconteceu a sucessos de bilheria co-produzidos pela Globo Filmes, como Os Normais. Entraram de sola numa paródia a um dos períodos mais dramáticos da história do país, arriscando-se a que parte dos espectadores mais jovens não reconheçam alguns dos referenciais das situações mostradas. Nada que preocupe os humoristas. Na coletiva de imprensa do lançamento do filme em São Paulo, Beto Silva comentou essa possibilidade: "Quem não tiver referência, vai rir do mesmo jeito. Quem tem a referência, vai rir mais. O cara sabe que é uma imitação do Gabeira numa determinada cena, vai rir. Quem não sabe que é ele, pelo menos saca que era um terrorista". O deputado Fernando Gabeira, aliás, foi um dos poucos convidados a recusar o convite de aparecer no próprio papel numa cena.Mais irônico, Bussunda comentou: "Você não precisa ler os livros do Elio Gaspari para entender nosso filme. Mas precisa ver o nosso filme para entender os livros dele". Nenhum dos comediantes teme qualquer tipo de patrulhamento ideológico. "Os caras que patrulham são todos ministros agora ou estão atrás de outras coisas", ironizou Cláudio Manuel.
