James Ivory troca momentaneamente os dramas de época que o celebrizaram - caso de Vestígios do Dia e Retorno a Howards End - por uma comédia de costumes que se nutre do choque de culturas. Mais do que perdidos na tradução, os personagens americanos e franceses que se encontram em Paris parecem às vezes não pertencer à mesma espécie, tamanha a incompreensão em torno de alguns assuntos - a paixão, o divórcio, a cobiça, a amizade, a moral. Felizmente, o tom é de comédia cínica e nunca se pretende filosofar em torno de nada. É um divertimento ligeiro, embora embalado no refinamento habitual de Ivory, que alguém já classificou com precisão como o mais britânico dos diretores americanos, associado como sempre aos seus fiéis escudeiros - o produtor Ismail Merchant e a roteirista Ruth Prawer Jhabvala (aqui, adaptando um bestseller de Diane Johnson).O elenco é uma seleção de alguns dos melhores atores dos EUA e da França e até um ou outro inglês - caso de Stephen Fry, que faz uma ponta como funcionário da empresa de leilões Christie´s. As protagonistas, porém, são as irmãs Roxeanne (Naomi Watts) e Isabel (Kate Hudson). A primeira é uma poetisa que vive em Paris, casada com o pintor Charles-Henri (Melvil Poupaud), mãe de uma filha de 9 anos, e esperando um outro bebê. Isabel, a mais nova, mora nos EUA e chega para visitar a irmã bem na hora em que o marido resolveu deixá-la - está apaixonado pela russa Magda (Rona Hartner), que também abandonou o marido (Matthew Modine).Assumindo a função de personagem trágica da trama, Roxeanne recusa-se a conceder o divórcio ao marido, louco para casar com Magda - que ele jura ser a mulher de sua vida. O conflito torna-se ainda mais azedo devido às diferenças legais entre a França e os EUA. Para piorar, a família aristocrática de Charles-Henri, liderada pela matriarca Suzanne (Leslie Caron), resolve interferir na divisão de bens e fica de olho especialmente num quadro trazido da América por Roxeanne e que pode ter sido pintado por Georges de La Tour, o que multiplicaria seu preço muitas vezes.Enquanto isso, Isabel desfruta a seu modo de sua estadia em Paris, inclusive traçando seu próprio imbroglio romântico. Arranja emprego como arquivista de uma professora americana (Glenn Close) e por seu intermédio envolve-se com um jovem (Romain Duris). Introduzida no círculo familiar do cunhado, porém, envolve-se com seu tio, Edgar (Thierry Lhermitte), um político de direita, bem mais velho e casado. Este cenário de traições, mentiras e reviravoltas apimenta-se com a chegada de outros personagens, como os pais das moças americanas (Stockard Channing e Sam Waterston) e um advogado francês (Jean-Marc Barr). O grand finale celebra a inacreditável fotogenia de Paris e sua torre Eiffell, comme il faut.
