11/09/2026

Fecham-se os olhos que desvendaram com a simplicidade a vida e o amor

 
 
Como todo mundo, fui pego de surpresa com a morte do cineasta francês Eric Rohmer. Desde os anos de 1990 eu ouvia falar dele, e lia sobre seus filmes, mas só fui poder vê-los quando o Estação os lançou no finado Top Cine, em São Paulo. Aliás, parece que fizeram tanto sucesso que num período de uns cinco anos, todos chegaram ao cinema – mesmo com um atraso de algumas décadas. O melhor é que praticamente tudo está disponível em DVD.
 
O meu preferido sempre foi Minha noite com ela – mas, há pouco tempo, revendo O Raio Verde (foto), acho que o posto de Rohmer que mais adoro tem que ser dividido entre os dois. Nem entrarei no mérito dos longas das Quatro Estações – porque aí o posto terá de ser dividido entre 6 filmes...
 
O que eu mais gosto nos filmes dele é como tudo é muito simples, como os personagens são tão reais, tão próximos de gente-como-a-gente. E estão em busca de coisas simples – a maioria deles busca alguém para amar e ser amado. Em seus filmes, Rohmer trabalha com miniaturas e por meio delas consegue captar diversas nuances do ser humano. Isso me lembra muito a literatura de Jane Austen, autora de livros como Persuasão e Orgulho e Preconceito. Os personagens dos dois, Rohmer e Austen, são como pequenas bonequinhas de porcelana que eles pintam a mão, cuidando de cada mínimo detalhe e por isso são tão atemporais e poderiam viver em qualquer lugar do mundo.
 
Não é raro ter momentos em que me lembro de Delphine – e até me identifico com ela- a protagonista indecisa de O Raio Verde. Ela nunca sabe muito bem o que quer, e vai de um lado para o outro em busca daquilo que nem sabe o que é. O que ela parece não querer é ser uma conformista, ficar parada. Mas ela é muito indecisa, muito volátil, muda de ideia a toda hora. Muita gente – mas muita mesmo – vai a chamar de chata. Eu a chamo de humana, de real, de palpável. A personagem foi interpretada por Marie Rivière – constante colaboradora do cineasta que nesse filme, especialmente, é creditada como corroteirista.
 
Certamente vou sentir falta dos filmes desse grande cineasta. Há uns três anos, a Cinemateca, em São Paulo, fez uma retrospectiva bastante abrangente – praticamente tudo existe em película, e foram lançados em cinema. Quem sabe alguém não se anima a fazer um novo ciclo que, desta vez, inclua Les amours d'Astrée et de Céladon, inédito em circuito no Brasil. Em tempo, coincidentemente, o cinema HSBC Belas Artes (SP), promove um ciclo com os filmes das Quatro Estações no mês de janeiro. Na semana passada foi Conto de Verão. Agora, em cartaz Conto de Outono, até a próxima quinta. Depois vem Conto de Inverno (de 15 a 21 de janeiro) e Conto de Primavera (de 22 a 28). Mais informações, no e-email [email protected]

Retrospectiva 2009 – Meus três livros brasileiros favoritos do ano

Nem preciso pensar duas vezes para escolher o melhor livro brasileiro lançado esse ano: O filho da mãe, Bernardo Carvalho. Segundo livro da série “Amores Expressos” (inaugurada no ano passado com o fraco Cordilheira, de Daniel Galera), o romance é uma narrativa intrincada que fala de guerra, maternidade e amor. Para o escrever, como parte do projeto, o autor passo um mês em São Petersburgo.  Mas a viagem jamais é o que guia o romance – pelo contrário.
 
O estranhamento do estrangeiro é uma constante na obra de Carvalho, e aqui ganhar contornos ainda mais profundos do que em seus melhores romances, como Mongólia e Nove Noites. Sem dúvida esse é um daqueles livros que melhor combinam forma e conteúdo. Variando os focos narrativos e os cenários, o autor produziu um romance denso e profundo, uma meditação sobre o amor materno, sobre a guerra e o preço da paz e, sobretudo, porque o ser humano teme tanto a melancolia e a solidão. Um grande livro.
 
Outro livro com variações de narradores e sensacional é Galiéia, de Ronaldo Correia de Brito. Lançado no final do ano passado, o romance é um mergulho na história de uma família, cheia de recordações especialmente algumas não muito boas. A narrativa aqui é bastante cinematográfica, cheia de flashbacks, histórias paralelas e personagens excêntricos. O mais interessante é a forma como o autor captura tudo isso, sem transformar o livro em um nordeste exótico para o sudeste apreciar. A força de Galiléia está exatamente nisso, em encarar com naturalidade os seus estranhamentos.
 
Por fim, outro bom romance nacional lançado nesse ano é O livro dos mandarins, de Ricardo Lísias. Esse é um olhar irônico e cheio de humor negro sobre o mundo hobbesiano das grandes corporações – aqui é um banco, mas poderia ser qualquer empresa. O protagonista é Paulo, e quase todos os personagens – exceto o vilão – se chamam Paulo, ou variações desse nome, Paula, Pauling, Paulson etc. Na verdade, como se percebe, ninguém é um ser humano, mas a somatória de rótulos e expectativas que projetam em você. Numa era de subornos, puxadas de tapete e afins – nada mais atual do que a literatura de Lísias.
 
A menção honrosa fica por conta da Companhia das Letras começar a relançar a obra completa de Lygia Fagundes Telles. Uma literatura tão apaixonante quanto inteligente que nunca poderá sumir das livrarias, bibliotecas ou estantes caseiras.

Retrospectiva 2009 - os melhores e alguns dos piores documentários nacionais

Num ano em que o documentário nacional mostrou toda sua força, Moscou, de Eduardo Coutinho se destaca como o melhor de todos. Com sua proposta ousada, não há meio-termo quando se fala do filme: ou se ama ou se odeia, ou se embarca na proposta do diretor ou deixa isso pra lá e entra na sala ao lado para ver qualquer outro blockbuster em cartaz. 

Acho que especialmente o fato de ter Tchekhov como base (a peça As Três Irmãs), o filme me pegou desde a primeira vez que o vi numa sessão do Festival É Tudo Verdade, no final de março. Depois de uma revisão, e uma longa conversa com o próprio Coutinho, meses depois, Moscou se sedimentou na minha cabeça e passei a gostar do filme ainda mais.
 
Se Moscou é o documentário mais radical dos últimos tempos, por outro lado, Cidadão Boilesen, de Chaim Litewski, é o mais relevante. Vencedor do É tudo verdade, o filme toca, ou melhor, escancara algumas feridas que jamais cicatrizarão na história do Brasil. Projeto financiado do próprio bolso pelo diretor, que trabalha no departamento de televisão da ONU em Nova York, o documentário tem como mote a vida e morte de uma figura controversa – o empresário dinamarquês Henning Albert Boilesen, que se radicou no Brasil e se tornou um dos principais financiadores da tortura. O filme ainda está em cartaz em São Paulo, e nas próximas semanas deve estrear em outras cidades.
 
As menções honrosas no documentário nacional ficam por conta de três filmes que, curiosamente, são retratos de músicos. Loki – Arnaldo Baptista, de Paulo Henrique Fontenelle, um filme melancólico, poético e ao mesmo tempo cheio de esperança e energia sobre o líder da banda Os Mutantes; Simonal – Ninguém sabe o duro que dei, dirigido por Calvito Leal, Claudio Manoel (sim, o Seu Creyson dirigiu um filme, e é muito bom!) e Micael Langer, que esclarece bastante sobre uma polêmica envolvendo o músico Wilson Simonal; e Herbert de Perto, de Roberto Berliner e Pedro Bronz, é ‘um filme de amigos’, nas palavras dos diretores, que mostra o músico e o homem Herbert Vianna.
 
Com tanto documentário bom, curiosamente, o pior nacional de 2009 também é um documentário. Alô, Alô, Terezinha, de Nelson Hoineff. Aqui se perde a chance de investigar um dos maiores fenômenos da televisão brasileira para se dar espaço a um verdadeiro freak show de exposição gratuita e desnecessárias – especialmente das ex-chacretes (acho que nem deveria ter a partícula ‘ex’, na frente, afinal, uma vez chacrete sempre chacrete) e de desconhecidos. Pode-se argumentar que as pessoas se prestaram a esse serviço – mas o diretor ainda tinha a chance de deixar tudo isso de fora na hora de montar o filme. Enfim, o que se vê na tela diz mais sobre o diretor, do que sobre Chacrinha.