09/09/2026

2011 em 20 (e tantos) filmes

Estrangeiros  

  

A ávore da vida – A espera valeu a pena. Em sua meditação sobre a vida, a morte e o começo de tudo, Terrence Malick fez um filme tocante e, ao mesmo tempo, reflexivo sobre de onde viemos e para onde vamos. Tudo isso ao som da bela trilha de Alexander Desplat – além de clássicos como Berlioz, Preisner, entre outros.

Um sonho de amor – Tilda Swinton como uma imigrante russa na Itália? Sim, e ela brilha num filme sobre acertos e erros, decisões e consequências, amor e fuga. Seria o melhor do ano se o mestre Malick não tivesse lançado sua obra-prima.

Tio Boonmee que pode recordar suas vidas passadas – O nome continua quase impronunciável:  Apichatpong Weerasetakul - mas seu cinema está cada vez mais sublime, mais acessível e bonito.

Cópia Fiel – Qual o valor da obra real? Qual o limite entre a encenação e a realidade? Especialmente numa época em que as televisões primam por uma suposta realidade transformada em show. Kiarostami filma fora do seu Irã e mostra como sua arte é universal.

Melancolia – O mundo está por um fio e só há uma pessoa que pode nos salvar: Lars von Trier. Ah, vá! O mundo vai acabar mesmo porque ele não vai fazer nada para impedir. Que bom que, ao menos,  é ao som de Wagner.

Margin Call – O dia antes do fim – Não sabe como aplicar o seu dinheiro? Não se preocupe, os investidores também. Mas eles sabem muito bem como salvar suas próprias fortunas. É um apocalipse financeiro, muito bem captado pelo diretor estreante J.C. Chandor.

Tudo pelo poder – Ah, esse políticos e seus assessores. Ninguém sai impune ou inocente de uma campanha. É preciso vender a alma para sobreviver. Se é para Deus ou o diabo só o tempo vai dizer.

Poesia – O título já dá conta do que é essa pequena joia do cinema coreano. Numa interpretação  sutil de uma grande atriz.

Um lugar qualquer – Sofia Coppola volta à sua zona de conforto nesse filme premiado em Veneza. Contando uma história que parece conhecer muito bem, numa escala intimista, a diretora norte-americana faz um filme sobre o sucesso, ou melhor, sobre o abandono da segurança e do conforto – e do vazio- sobre pessoas que se atiram no mundo em busca de algo que lhes faça completo.

Namorados para sempre – Longe de ser uma daquelas tirinhas do casalzinho de “Amar é...”, esse é um dos filmes mais dolorosos do ano. Amar é sofrer, não amar é sofrer mais. Um sofrimento que merece músicas do Grizzly Bear para aumentar o sentimento de tristeza.

Menções honrosas (em ordem cronológica de estreia)– O Mágico, A última estação, Inverno da Alma, Bravura Indômita, Trabalho interno, Não me abandone jamais, Rio, Reencontrando a felicidade, Singularidades de uma rapariga loura, Meia-noite em Paris, Potiche, Balada de amor é ódio, Confiar, Missao madrinha de casamento, Copacabana, O garoto da bicicleta, Hiroshima – Um musical silencioso (que não estreou em SP), Os Muppets, Isso não é um filme
 
Nacionais
 
O palhaço – Mais livre, leve e solto do que em sua estreia na direção, Feliz Natal, Selton Mello faz uma ode à simplicidade, narrativa, de personagens, e visão de mundo. É um filme que se comunica, que consegue agradar a gregos e troianos. É alegre, ao final, mas antes disso mostra que há um caminho cheio de conquistas, derrotas e voltas por cima.
 
Ex-isto – Meio documentário, meio encenação, um filme de Cao Guimarães sobre “Catatau”, de Paulo Leminski, não podia ser convencional. O filme é cinema de invenção, cheio de criatividade e desafios para seu público – além de uma interpretação pra lá de inspirada do baiano João Miguel.
 
Transeunte- A ideia é simples: um sujeito solitário que é um transeunte em sua própria vida. Mas Eryk  Rocha transforma a simplicidade na epopeia da vida. Fenando Bezerra da vida ao personagem, e alma, ao filme.
 
Bróder – A estreia em longa do premiado curta-metragista Jefferson De mostra bem a que ele veio. Um filme vigoroso que ao mesmo tempo em que fala do abismo social de São Paulo, aborda preconceito racial de forma bem sutil.
 
Assim é se lhe parece – Carla Gallo faz um documentário sobre o artista plástico Nelson Leiner e em sua composição incorpora o mesmo caos ordenado que faz da obra dele algo único. Mais que um documentário, é uma experiência sensorial.
 
As canções – Coutinho é Coutinho, né? Por mais que falem que é ‘uma versão musical de “Jogo de cena”’, o documentarista se reinventa e vai no coração de seus entrevistado – por meio de músicas e histórias de amor. E quem não gosta de uma boa história banhada em lágrimas e com trilha sonora?
 
Diário de uma busca – Meio filme, meio exorcismo, o documentário de Flavia Castro investiga uma ferida aberta na história de sua família. É uma jornada pessoal, mas que, no fundo, diz a todos nós, ao falar do passado recente do país.
 
Estamos juntos – Tony Venturi faz o retrato de uma São Paulo unida por extremos opostos, que precisam se aturar para sobreviver. Leandra Leal (melhor atriz no CinePE) está precisa como uma médica que precisa repensar a sua vida.
 
Não se pode viver sem amor – Filme mais odiado do que amado mas que é repleto de qualidades – nem que seja sua grande criatividade e ousadia. Veterano roteirista, Jorge Duran nos apresenta um retrato original de pessoas em busca de conexão umas com as outras, num mundo um tanto cruel.
 
Além da estrada – Um filme brasileiro, porém uruguaio. Seja lá o que isso for. O brasileiro Charly Braun estreia em longa num road movie sobre o amor. Um filme simples, mas de um coração gigantesco e a sensibilidade maior ainda.
 
 
Menções honrosasMalu de Bicicleta, Bruna Surfistinha, Natimorto, Elvis & Madona, Uma professora muito maluquinha.

Salve Jorge

Com o lançamento de Capitães da Areia, na próxima semana, começam as comemorações do centenário do escritor baiano Jorge Amado, nascido em Itabuna em 10 de agosto e morto em 2001. Essa é a segunda adaptação do romance lançado em 1937.  A primeira foi em 1971, pelo americano Hall Bartlett, falada em inglês, que ficou bastante popular na União Soviética. O novo filme é dirigido por Cecília Amado – neta do autor.
 
A obra de Jorge Amado, um dos autores brasileiros mais populares no Brasil e no exterior, no entanto, se mostra mais bem traduzida para a televisão do que para o cinema. Acredito que isso se deva ao fato de seus livros trazerem muita, mas muita mesmo, trama e personagens. Transformá-los em roteiro é ter de abrir mão do colorido e do painel gigantesco que o escritor pinta do Brasil – especialmente da Bahia. Um amigo, professor no Departamento de Letras Vernáculas, na Universidade Federal da Bahia, e nascido e criado em Salvador, comparou certa vez Jorge Amado a Charles Dickens – e acho que está coberto de razão.
 
Os dois escritores, cada um a seu modo, escreveram livros volumosos e populares, e, mais importante, que retratam uma época, um lugar.  Na obra de ambos, também, há muitos personagens marcantes – todos muito bem construídos e delineados. Dickens, com seus pobres garotos de rua e/ou órfãos, e Jorge, com suas mulheres exuberantes, cheias de amor para dar.
 
Por isso mesmo, só uma vez, com Dona Flor, o cinema deu conta de fazer justiça à obra do escritor. Tieta e Gabriela se saíram muito melhor no formato de novela que, com sua duração, é capaz de englobar a complexidade dos personagens que vão sendo delineados nas centenas de páginas dos romances – Tieta tem em torno de 600; Gabriela, um pouco menos, 400. As duas novelas renderam cenas antológicas – como a volta de Tieta a Santana do Agreste ou quando ela arranca a peruca da irmã Perpétua, e Gabriela subindo num telhado para resgatar uma pipa.
 
Especula-se um remake da novela Gabriela para o ano que vem, que poderia trazer Juliana Paes no papel-título. Mas, acho que Nanda Costa – recentemente premiada em Paulínia por seu trabalho excepcional por A Febre do Rato – tem mais o perfil e faria um grande trabalho de reinvenção de Gabriela, uma vez que a figura de Sônia Braga ainda é muito forte na lembrança de todo mundo.

Um furacão chamado Pelé passa por Recife

No CinePE, que já virou Cine Pelé, a passagem do jogador causou o devido alvoroço. Na noite de ontem, durante a homenagem, tudo foi até tranquilo, mas na manhã de hoje, na coletiva, foi um alvoroço digno da figura do rei. Câmaras de televisão formaram um paredão que impedia até a primeira fileira de ver algo. Os jornalistas e fãs do jogador se espalharam pelas laterais para tentar ver alguma coisa.
O jogador respondeu às perguntas, e, com anos de experiência, é claro que sabe se sair bem. Até quando a jornalista Maria do Rosário Caetano trouxe uma foto de Pelé e Brigitte Bardot, o rei titubeou. A tal imagem é mencionada no documentário de Evaldo Mocarzel, Cine Pelé, exibido na noite de abertura do Festival. Rosário mencionou que na imagem ele não olha para a estrela francesa, e o jogador saiu-se com: “Quando uma garota como Brigitte Bardot vem abraçar o Pelé, fica difícil entrar em campo depois”. O público veio abaixo em risadas.
Um blogueiro-mirim tirou foto com o seu ídolo, depois de fazer uma pergunta. Mas o pai do garoto não se dava por feliz e insistia em tentar colocar o filho mais uma vez ao lado do jogador. Fotógrafos dirigiam a cena: “Pelé, olha pra direita”, “Pelé, olha pra esquerda”, “Aqui no centro, Pelé”. Eu, do canto, fiz uma foto com o celular – e nem precisei pedir para ele olhar para o meu lado.

2 X Bravura Indômita

Cada um tentanto fazer o que o outro faz de melhor
 
Quem faz um bêbado com mais perfeição: Jeff Bridges ou John Wayne? Qual dos dois montam melhor num cavalo? Qual é melhor atirador? John Wayne ganhou um Oscar das mãos de Barbra Streisand por seu trabalho em Bravura Indômita, de 1969. Será que isso se repete mais de 40 anos depois? É pouco provável, mas não por conta da interpretação de Bridges, mas mais porque ele acabou de ganhar o mesmo prêmio no ano passado, por Coração Louco. (Mas que constem nos autos: Bridges é melhor beberrão; e Wayne, melhor montador).
 
Vendo a nova versão de Bravura Indômita, que estreia na próxima sexta, dá pra imaginar o que os irmãos Joel e Ethan Coen devem ter visto no livro original, de Charles Portis, que os atraiu para fazer um novo filme: há sangue (bastante, mas não mais do que em outros filmes deles), também há personagens vivendo no limite do desespero, e, acima de tudo, há aquilo que mais atrai nas filmes da dupla, gente se dando mal.
 
Ao contrário do filme antigo – que está disponível em DVD, e acaba de ser lançado em blu ray, repleto de extras –, no qual reinava um ultrarrealismo em technicolor, na versão 2010, a fotografia (assinada pelo brilhante Roger Deakins) é soturna, carregando nos tons de preto, cinza e marrom. No lugar das planícies verdes e ensolaradas, os campos são secos, cobertos de neve e melancólicos.
 
A trama é praticamente a mesma: garota procura um oficial corajoso, dono de métodos pouco ortodoxos, para encontrar o vagabundo que matou seu pai. A garota foi interpretada por Kim Darby, e era uma espécie de alívio cômico do filme que, com sua ingenuidade, mais parecia uma boba alegre – embora seja uma personagem cativante, especialmente pelo carisma da atriz. Agora, a estreante Hailee Steinfeld encara uma personagem muito mais complexa, e tão dura quanto todos os outros. Não há espaço para inocência – esta foi perdida há muito tempo – e o que sobra é a jornada em busca da vingança.
 
Haillee é uma grande atriz, e sua trajetória em busca de justiça faz lembrar outra personagem: a protagonista de Inverno da Alma, interpretada por Jennifer Lawrence. O que une as duas – em filmes não tão distantes assim – é a ausência da figura paterna, o que as transforma ‘no homem da casa’ – embrutecidas, mas sem perder a doçura, a feminilidade. No novo Bravura Indômita até há espaço para um romance um tanto sutil, que, no antigo, fica enterrado bem nas entrelinhas.
 
Henry Hathaway, diretor do filme de 1969, usa a cor de forma sábia (por isso ganha-se muito vendo o filme num DVD ou BD), mas tem uma visão romântica de toda a situação. Numa das primeiras cenas, três homens são enforcados com seus olhares carregados de dignidade. Já a cena do enforcamento do filme dos irmãos Coen tem outra conotação.
 
A personagem feminina – por mais que Wayne e Bridges sejam creditados como protagonistas – é quem conduz a trama. É ela a heroína em busca de justiça, e não quer que o assassino seja apenas vingado – ele tem de pagar o assassinato onde cometeu o crime. E isso a faz bater de frente com um Texas Ranger que está em busca do mesmo homem, e pretende que seja enforcado no seu estado, onde matou um senador. O personagem é interpretado pelo cantor country Glen Campbell e, na última versão, por Matt Damon –que dão conotações bastante diferentes ao LaBeouf.
 
Cinéfilo que se preze não precisa escolher entre um dos dois filmes. Como qualquer boa obra de arte, Bravura Indômita permite leituras múltiplas e diversas interpretações. Ufa! Até porque é bem difícil escolher entre o beberrão forçado de Wayne, com jeitão de tio bom de papo, e o doido criado por Bridges – aquele cara com quem seria legal sair para caçar e beber.

“Sob o Sol de Satã”: Tudo de novo sob o sol

O romancista francês Georges Bernanos (1888-1948) é mais conhecido pelas adaptações literárias de suas obras. “Diário de um Pároco de Aldeia” (1951) e “Mouchette, A Virgem Possuída” (1967) – ambos de Robert Bresson – e “Sob o Sol de Satã” (1987), de Maurice Piallat, que rendeu à França uma das Palmas de Ouro mais polêmicas do Festival de Cannes. Longe das livrarias brasileiras e raros nos sebos, os livros do escritor, que morou em Barbacena (MG), ganham novas edições publicadas pela É Realizações, que pretende relançar toda a obra.
 
O primeiro da lista é o romance de estreia de Bernanos, “Sob o Sol de Satã” (É Realizações, 320 p, tradução Jorge de Lima, R$53), publicado em 1926. Escritor católico, ele nunca fez de sua obra panfleto de conversão religiosa, nem tampouco transformou personagens em figuras míticas (ou até místicas). Logo em seu primeiro livro acontece um embate entre um padre e o diabo.
 
Um padre de uma pequena aldeia duvida de sua vocação religiosa e enquanto anda por uma estrada encontra o próprio Satã. Donissan é o protagonista, um padre querido na sua região, mas que no fundo é uma figura atormentada – a primeira da coleção de Bernanos de personagens consumidos por conflitos internos.
 
Já no prólogo de “Sob o Sol de Satã” conhecemos Mouchette – que mais tarde será tema de outro livro. Jovem adolescente do campo que engravida de um marquês, acaba o matando e seduzindo um médico para que ele lhe faça um aborto. O corpo, tanto dessa personagem quanto de Donissan, passa por provações. Ele é adepto de práticas condenadas até por seus superiores. Acredita que, talvez, pelo sofrimento da carne possa estar mais perto do Paraíso. Donissan ganha status de um santo vivo na sua aldeia, e, graças a algumas de suas ações, essa posição só tende a ganhar força.
 
Os temas que serão caros à obra de Bernanos começam a ganhar contorno nesse “Sob o Sol de Satã”. O conflito espiritual entre o bem e o mal – o divino e o mundano – são capazes de guia o destino dos homens. Quando os caminhos de Donissan e Mouchette se cruzam, é que o escritor traz para suas páginas um grande embate. Tão grande, que Piallat, em seu filme, parece não ter conseguido o captar muito bem.

“Uma Viagem à Índia”: Navegar sempre será preciso

 
Numa época em que o verbo ‘navegar’ adquire outra conotação diferente daquela das Grandes Descobertas dos séculos XV e XVI; e em que as pessoas se contentam em expressar suas opiniões, sentimentos e pensamentos em apenas 140 toques o português, de origem angolana, Gonçalo M. Tavares ousa escrever um livro de mais de 400 páginas em verso – aos moldes de “Os Lusíadas” – mas sem negar a modernidade. “Uma Viagem à Índia” (480 pg; Editora LeYa; R$44,90), lançado no Brasil no final do ano passado, é uma espécie de cruzamento entre Camões e James Joyce, o encontro do clássico com o século XX.
 
Escritor ambicioso, na literatura de língua portuguesa contemporânea, Tavares ocupa um lugar especial. Suas séries de livros são densas e estimulantes, e os títulos, enganadores. “Jerusalém”, seu livro mais conhecido e premiado, não é sobre a cidade, nem sobre um lugar, mas sobre um estado de espírito. O título vem de um salmo bíblico: “Se eu te esquecer, Jerusalém, que paralise a minha destra. Colada fique a minha língua ao céu da boca se eu não te recordar, e se eu não erguer Jerusalém acima de minha alegria”. Em “Uma viagem À Índia”, ele não faz por menos.
 
O livro é divido em dez cantos e tem a disposição de um longo poema, sem nunca ser um poema. Não há qualquer elemento formal, como rimas, estrofes e versos, e a escrita não é bem poética – é crua, direta. Esse esquema formal quer indicar o aspecto épico do livro, mas, no fundo é uma releitura – uma espécie de paródia, não num sentido negativo – de Camões. Essa é a grande ironia do livro:
 
“Por cima da catástrofe, de um ponto de vista aéreo,
o homem é capaz de ironizar,
porém, já debaixo da catástrofe,
debaixo de seus escombros,
a ironia será a última a aparecer
depois da acção instintiva de defesa,
do desespero que ainda emite ordens e tentativas,
e do último grito que assinala o fracasso”
 
O protagonista, Bloom (o mesmo nome do protagonista de “Ulysses”) foge. Foge não apenas de uma cidade, Lisboa, seus amigos e conhecidos, mas foge da chama que o consome: um duplo homicídio. Uma pessoa próxima a ele foi assassinada, e ele a vingou. A trajetória do personagem, passando por diversas cidades e conhecendo pessoas, abre seus olhos para uma espécie de verdade universal: todo mundo é igual, não importa onde.
 
“Uma Viagem à Índia” é uma espécie de romance conceitual, que, ao final, inclusive traz gráficos. É uma leitura desafiadora, quase do tamanho da ambição de Tavares. Se ele nem sempre sucede em suas aspirações – o formato de poema, por exemplo, nem sempre se justifica -, mas, ainda assim, o autor é capaz de mapear alguns dos males do homem contemporâneo com maestria, e mostra que, enquanto existir a humanidade, navegar será o nosso destino.

Os melhores de 2010

O ano de 2010 chega ao fim, e eis os meus filmes favoritos que estrearam em cinema:
 
Nacionais
 
4-     O sol do meio-dia
5-     Insolação
8-     Dzi Croquettes
 
Estrangeiros
 
1-    O profeta
3-     Vincere
4-     Soul Kitchen
7-     Sempre bela
8-     A fita branca

Rohmer na Coréia e Huppert na África, num sábado Indie no CineSESC

Para o inverno se despedir em grande estilo, sábado passado deve ter sido um dos mais frios do ano. Mas isso não espantou o público do CineSESC que lotou as sessões do INDIE 2010 na sala – especialmente dois dos filmes mais esperados do festival.
 
HAHAHA é uma comédia hilária – como deixa claro o título – e brilhante do coreano Hong Sangsoo. O filme recebeu o prêmio do júri na mostra Um Certo Olhar, em Cannes, em maio passado, e mostra uma série de encontros e desencontros amorosos de um grupo de jovens numa pequena cidade balneária na Coréia. É um cinema que flerta diretamente com o do francês Eric Rohmer – uma narrativa simples, muita gente falando, e filosofando sobre amor.
 
O cinema de Hong foi tema de uma retrospectiva há quatro anos, quando o Indie fez sua primeira mostra em São Paulo, e as sessões também lotaram. Esse é um daqueles cineastas premiados e elogiados da atualidade cujos filmes , por algum mistério do universo, nunca chegam em circuito no Brasil. Uma pena, porque o público se divertiu muito na sessão de sábado – prova disso foram que as pessoas não paravam de rir.
 
A sessão seguinte foi de White Material, da francesa Claire Denis, exibido em competição em Veneza no ano passado e que traz Isabelle Huppert no papel de uma fazendeira francesa num país qualquer na África, quando explode uma forte tensão racial que se transforma em guerra civil.
 
La Huppert, como é de costume, está excepcional no papel de uma mulher que se vê no meio do fogo cruzado sem ter onde se abrigar. A direção, como acontece nas obras de Denis, é contida e, por isso mesmo, de uma força assustadora lidando com um assunto tão complexo que nunca sai de pauta. Ao falar da África, das tensões raciais, a diretora não está apenas falando de um continente distante, mas também de seu país, ou, até mesmo do mundo em que moramos.
 
Como acontece com Hong, Denis também é uma cineasta negligenciada pelo circuito brasileiro. Apenas um filme dela entrou em cartaz – Desejo e Obsessão. White Material é da distribuidora Imovision, e deve entrar em circuito ainda este ano. Tomara!

Feliz aniversário, Mr. Eastwood

 
O grande Clint Eastwood chega hoje aos gloriosos 80 anos, com um vigor de uns 30 – como bem sabemos. Ator, diretor, produtor, compositor e gênio do cinema, ele é mais uma entidade do que um ser humano. Ele já dirigiu meia dúzia de clássicos por aí: Os imperdoáveis, Bird, Sobre meninos e lobos, Menina de ouro, o díptico A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima, Gran Torino – só para ficar nos mais recentes. Atuar, ele atuou em mais de 60 – e, claro, os mais notórios são os westerns spaguetti, o mais famoso, e talvez o melhor, é Três homens em conflito.
 
Não consigo escolher um único filme dele. Acho que os que citei no primeiro parágrafo disputam o posto de meu favorito. Está bem, se tivesse de escolher um ficaria com Os imperdoáveis, seguido de perto por Sobre Meninos e Lobos.
 
Em sua obra, Eastwood fez uma radiográfica, sempre melancólica, da sociedade norte-americana em transformação – não necessariamente para melhor.
 
Ainda para esse ano (quem sabe no Festival de Veneza, em setembro) ele promete Hereafter – um suspense sobrenatural com Matt Damon e Bryce Dallas Howard. E para 2012, está previsto Hoover, uma biografia do polêmico diretor do FBI J. Edgar Hoover. Leonardo Di Caprio deve fazer o biografado.