Alysson Oliveira
Letras e fotogramas
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Precisamos falar sobre Elizabeth Strout
- Por Alysson Oliveira
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Há muito pouco de Elizabeth Strout publicado no Brasil – infelizmente. Apenas seu penúltimo romance MY NAME IS LUCY BARTON (aqui, Meu nome é Lucy Barton, com tradução de Sara Grünhagen), o que é uma pena, pois os leitores brasileiros não estão tendo acesso a uma das maiores escritoras americanas da atualidade. Nem OLIVE KITTERIDGE, ganhador do Pulizer de Ficção em 2009 e base de uma série estrelada por Frances McDormand, ganhou uma tradução no Brasil.
A obra da escritora tem ao centro personagens femininas e seus dilemas cotidianos. Há algo em Strout que lembra Alice Munro, embora o cenário seja outro, mas a delicadeza e precisão com que constróis perfis e tramas a partir destes a americana tem em comum com a canadense. O romance Lucy Barton é algo raro no gênero, sempre tão preocupado com a formação de personagens masculinos. Aqui temos um romance de formação que recusa o rótulo e traz como protagonista uma mulher.
Narrada pela própria Lucy que tem a vantagem de olhar para o passado e revisitar episódios de sua vida, a trama se passa durante cinco noites nos anos de 1980, quando ela estava num hospital em Nova York, onde tirou o apêndice, mas ainda convalesce de uma doença que os médicos não conseguem diagnosticar. Inesperadamente sua mãe, com quem não fala há anos, aparece no hospital, e isso traz à tona memórias da infância.
Os anos de formação da personagem são contados de forma quase factual. Strout não deixa se levar por sentimentalismos, sua precisão ajuda a dimensionalizar Lucy, e sua infância solitária, que, conforme ela confidencia, a levaram a se tornar uma escritora. E isso persiste até essa vida adulta, na qual é divorciada e mãe de duas filhas pequenas. E essa doença misteriosa que a mantém por meses no hospital? Poderia ser algo psicossomático que se cura com a presença da mãe e a reconciliação das duas.
Apesar da mãe ser faladora, cheia de histórias sobre pessoas que as duas conhecem, ou conheciam, é nos silêncios que elas se entendem. É quando aquilo que não precisa ser dito emerge que elas podem olhar olhos nos olhos (nem que seja simbolicamente), ver a verdade de uma na outra. Strout parece conhecer isso muito bem. Suas personagens são repletas de nuances, assim como os laços que as une. É também um prazer encontrar um romance sobre a formação emocional e o amadurecimento de uma mulher – atualmente, Elena Ferrante, com seu quarteto napolitano é outra que tem feito isso – num gênero tão dominado pelos ritos de passagem de garotos para homens.
Persistência e Resistência em
- Por Alysson Oliveira
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T2 Trainspotting: No lust, no life
- Por Alysson Oliveira
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Tal qual o filme original, T2 TRAINSPOTTING também começa com o protagonista, Renton (Ewan McGregor), correndo, mas, ao contrário de lá, uma corrida frenética pelas ruas de Edimburgo, aqui, é numa esteira numa academia em Amsterdã – uma corrida, enfim, que não leva a lugar nenhum. Não há mais “lust for life”, e a trilha sonora melancólica que segue na abertura – apenas alguns acordes de Perfect Day – indica que os tempos mudaram. E como não? São mais de 20 anos de diferença, e muita água passou por debaixo da ponte histórica-social da Europa.
Mas para que haja filme, é claro, Renton precisa voltar ao seu país, encarar seus fantasmas do passado – especialmente o trio de amigos que ele traiu no final do primeiro filme – e seguir em frente. Em 1996, a globalização era uma promessa – falsa muitos sabiam, mas não custava ter esperança – de um mundo e uma vida melhor. Londres era logo ali do lado, e estava repleta de oportunidades. A segunda década do século XXI escancarou a falácia daquele processo, o Leste europeu invadiu o outro lado do continente, o neoliberalismo ganhou mais força e seu trator passou por cima de tudo e todos. Não esqueçamos o Brexit também.
Danny Boyle – trabalhando com um roteiro de John Hodge (o mesmo roteirista do original) a partir dos romances Trainspotting e Porno, de Irvine Welsh (que faz uma ponta, novamente, como receptor de mercadoria roubada – sabe que não existe espaço para releitura dos personagens e situações, mas para um mergulho no que eles transformaram desde aquela época.
E o passado vem cobrar sua conta. O quarteto está pagando, cada um ao seu modo, por todos os excessos e erros da juventude excessiva de 20 anos atrás. Mas não se trata de um filme moralista que aponta dedos, pelo contrário, é um filme até carinhoso com seus personagens, mas sem os eximir de suas escolhas. Fazemos escolhas certas ou erradas, e o presente e o futuro são o resultado delas, parece dizer T2. Simon (Jonny Lee Miller) é um cafetão que filma e chantageia os clientes de sua “funcionaria”, Veronika (Anjela Nedyalkova), mas pretende abrir um bordel no antigo pub de sua tia. Para isso, contará com dinheiro público, alegando que criará (sem entrar em detalhes) um espaço de socialização para turistas (o que, vá lá, não deixa de ser verdade) na região portuária da cidade, que está em processo de revitalização.
Begbie (Robert Carlyle), que está preso, desde que foi traído por Renton, que ficou com o dinheiro da venda das drogas, mas foge da cadeia. E Spud (Ewen Bremner), um tanto lento nas ideias, mas dono de um bom coração, quer tomar medidas drásticas porque não se considera apto a cuidar da mulher e do filho pequeno. O reencontro inesperado e inevitável dos quatro coloca o presente e o passado em nova perspectiva.
Os floreios visuais a que Boyle sempre foi dado são usados de maneira funcional e traduzem – como no primeiro – a desestabilidade psíquica e emocional dos personagens, e, por isso, cabem bem ao longo do filme. Não é intenção do diretor fazer uma obra de realismo social intenso – deixemos isso pra Ken Loach, Andrea Arnold, Mike Leigh e afins – mas há algo disso sorrateiramente no filme.
Seus personagens são de origem “working class”, que tentam se ascender socialmente, ainda que por vias tortas – prostituição, tráfico. O passado, repleto de possibilidades, esperança e até vida (havia lust for life), hoje é uma prisão de classe média com roupas caras – exceto para Spud -, geringonças tecnológicas – novamente exceto para Spud – e afins. A economia prometia um crescimento, uma melhora; hoje, sabemos no que nisso tudo deu. Ainda assim, Boyle/Hodge/Welsh encontram uma nota de esperança para concluir o filme de maneira épica, sem, ao mesmo tempo, abrir mão do tom alucinante que Trainspotting sempre foi.
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