Sempre com ritmo preciso e muito humor, ele conduz a história de Yosuke (Koji Yakusho) e Saeko (Misa Shimizu) - a mesma dupla que atuou em A Enguia, aqui com uma afinação ainda maior. Ele, 40 anos, desempregado, separado da mulher e do filho, mora na periferia de Tóquio, dividindo habitações precárias com mendigos - insinuando uma crítica social ao expor as cicatrizes deixadas pela globalização até mesmo no avançado Japão. Um desses companheiros de infortúnio é um velho exótico, Taro (Kazyo Kitramutra), que deixa a Yosuke uma dica preciosa antes de morrer: que ele procure, numa certa casa, numa cidadezinha do interior, uma valiosa estátua que ele roubara anos atrás e agora poderia render-lhe um bom dinheiro.
Na casa, que fica bem ao lado da tal ponte vermelha, Yosuke encontra um tesouro bem diverso: uma jovem mulher (Misa Shimizu) desinibida e portadora de uma estranha síndrome: fica cheia de água e, para liberar-se, deve fazer imediatamente algo transgressivo - sexo, por exemplo. A atividade sexual drena a água tépida de Saeko que se transforma, ao cair no rio ali bem perto, na seiva que aumenta a fartura de peixes das redes dos pescadores locais. Uma água que renova a secura de Yosuke e vira de pernas para o ar seu mundo que andava tão árido.
A esta altura de sua vida e de sua maturidade artística, Imamura parece lembrar que a solução para os conflitos do novo milênio estão, como sempre estiveram, na História, sempre adiante do que o bom-mocismo e as regras sociais, econômicas e políticas insistem em tentar mumificar. Quem se escandalizar com esta sátira desavergonhada ao conformismo e com a sua apaixonada declaração a favor da renovação do desejo, que procure seu porto longe desta ponte vermelha que Imamura estende à imaginação.
Cineweb-15/11/2002
