Canadense do lado francófono, o diretor e roteirista Denys Arcand promove aqui um instigante acerto de contas com a sua formação católica. E, apesar de ser declaradamente ateu, fornece nesta sua história original uma visão que nada tem de herética para com a religião. Ao contrário, Arcand mostra-se capaz de compreender profundamente a figura humana de um homem que é tomado pela fé, contra as conveniências mais ou menos levianas de toda uma sociedade - uma situação que se aplica com perfeição à figura histórica de Jesus Cristo.
O protagonista aqui é Daniel (Lothaire Bluteau), jovem ator chamado pela basílica de Montreal para comandar uma encenação da Paixão de Cristo. Mantendo a referência bíblica, o próprio nome de Daniel não foi, com certeza, escolhido ao acaso pelo diretor-roteirista. Este Daniel, como o da Bíblia, está mergulhado numa cova de leões. Desde o começo, sua tarefa de montar a peça religiosa encontra todo tipo de obstáculos. Ele mesmo assume o papel de Jesus, convida o elenco, conduz os ensaios e, driblando as dificuldades, consegue encenar a peça com um sentido de renovação em busca de maior sintonia com as platéias modernas, como lhe fora pedido pelo padre. Tem tanto sucesso nesta reciclagem do tema religioso que consegue um surpreendente sucesso de público. Ironicamente, a repercussão é o motivo para que a arquidiocese considere a encenação ofensiva aos princípios da fé e procure interromper sua temporada.
Como que tomado por seu personagem, Daniel começa a agir de forma inesperada para defender seu trabalho - o que o leva a ter que enfrentar a justiça. O próprio Arcand, aliás, comparece numa ponta, interpretando um juiz. Vencedor do Prêmio de Júri e do Prêmio Ecumênico no Festival de Cannes de 1989, além de 12 Génie (o troféu da Academia Canadense de Cinema) e da primeira indicação do diretor ao Oscar de filme estrangeiro, o filme é uma estimulante alegoria sobre os mecanismos da religião e do poder em sua procura de manipular a individualidade humana.
