03/06/2026
Drama

Amor e Restos Humanos

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Retrato afiado de época bem à moda de Denys Arcand - apesar de não ser um roteiro original -, o filme retrata um período em que o medo está na ordem do dia. De um lado, há o pavor pela presença de um maníaco matador de mulheres à solta, que exerce o macabro requinte de arrancar seus brincos, junto com um pedaço de suas orelhas, num ritual de colecionador perverso. Em paralelo, corre outra histeria sem nome, o pavor da AIDS, que contamina a já por si só instável e ansiosa busca amorosa.

David (Thomas Gibson) é um garçom de restaurantes de luxo que abandonou repentinamente uma carreira de ator. Divide um apartamento com uma amiga, com quem já teve um caso, a crítica de livros Candy (Ruth Marshall). De humor instável e insegura pelos desastres amorosos recentes, ela hesita entre envolver-se com outra mulher, Jerri (Joanne Vannicola) e tentar um romance com um outro garçom paquerador.

No restaurante em que trabalha, David é objeto de atração de seu ajudante de 17 anos, Kane (Matthew Ferguson), que ele acaba levando ao quarto de uma amiga, Benita (Mia Kirshner) - uma prostituta especializada em atender clientes com fetiches bastante fora do comum, quase sempre usando fantasias.

A personagem da prostituta é uma singular mistura do profano e do sagrado, ao revelar seu lado sensitivo - ela é capaz de premonições. O quadro se completa com outro amigo de David, Bernie (Cameron Bancroft), um funcionário público que mata o tédio com a conquista incessante de mulheres. Toda esta galeria de personagens interage de forma intensa, expondo a complicada teia que une a busca sexual e afetiva à angústia de um tempo dominado pelo signo da peste e da violência urbana. O enredo foi adaptado de duas peças do autor Brad Fraser: Unindentified Human Remains e The True Nature of Love. Fraser, aliás, é considerado um dos dramaturgos mais corrosivos do Canadá que fala inglês. Este filme, aliás, foi o primeiro de Arcand falado nessa língua.

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