O delicado fio que une as gerações é habilmente torcido nesta comédia espertíssima, que combina o melhor dos elencos a diálogos de uma elegância que vem gradativamente abandonando o gênero. O motivo é simples: a esmagadora maioria das comédias é dirigida ao público adolescente masculino. E rezam as leis não escritas que governam o gosto desse público - ou assim dizem os produtores de seus filmes - que essa platéia só quer ver escatologia em doses industriais. A parcela do público que não se encaixa nesse padrão passa a maior parte do tempo órfã e, com bastante razão, prefere assistir aos dramas que, bem ou mal, abordam com mais freqüência os temas adultos. Nancy Meyers, a diretora e roteirista, tem estrada. Um de seus primeiros roteiros foi A Recruta Benjamim, pelo qual venceu um prêmio do Sindicato dos Roteiristas Americanos. Foi também co-roteirista de Presente de Grego e dos dois capítulos da refilmagem O Pai da Noiva, todos os três com Diane Keaton à frente do elenco. É justamente Diane a estrela desta história romântica madura e 100% divertida. Já de saída, desafia-se aí outro daqueles postulados férreos de Hollywood, a ditadura da juventude, o que condena atrizes maiores de 35 anos como impróprias como protagonistas. Pois Diane, do alto de seus 58 anos, exibe orgulhosamente suas rugas e seu luminoso sorriso, encarnando a dramaturga Erica Barry. Divorciada rica e bem-sucedida na profissão, ela amarga uma solidão que é muito comum, na vida real, para mulheres da sua geração. Inesperadamente, sua vida amorosa sofre um solavanco quando hospeda em sua casa na praia a filha Marin (Amanda Peet) e seu namorado sessentão, Harry Sanborn (Jack Nicholson).Harry é o típico namorador que passou a vida evitando compromissos e mulheres de sua idade. Mas, quando ele sofre um infarto, e é obrigado a ficar alguns dias hospedado na casa de Erica, os limites de ambos são postos à prova. E se apaixonam.A primeira metade do filme é um show de risadas, por conta desse embate entre os dois madurões cheios de truques, defesas e recursos de sedução. É um prazer enorme desfrutar de um roteiro como esse, capaz de tirar proveito do enorme arsenal de talentos destes dois ótimos atores que são Diane e Nicholson. Ele, em sua melhor forma, na pele de um demônio que está perdendo os dentes mas ainda tem uma reserva considerável de veneno - um papel, aliás, feito à sua imagem e semelhança na vida real. Ela, radiante e charmosa, demonstrando que a Annie Hall (de Woody Allen) a quem ela emprestou seu DNA e que lhe deu um Oscar em 1978 continua imbatível. Se a segunda metade do filme não flui com a mesma leveza, talvez por um desejo excessivo de explicações, isto não chega a comprometer o todo. É uma comédia com ambição e que ousa colocar em primeiro plano temas delicados, como envelhecimento, morte, solidão, atendendo à coerência de habitar o universo de pessoas de 50 e 60 anos. No todo, o filme é delicioso e um dos melhores programas da temporada. Parte do mérito deste trabalho também deve ser creditado ao elenco coadjuvante, onde brilha Frances McDormand, como a irmã de Erica, e não fazem feio Amanda Peet e Keanu Reeves - que parece outra pessoa longe dos trajes negros e das preocupações metafísicas de seu personagem da cinessérie Matrix.
