Em alguns momentos, assistir a este documentário é como ver um "reality show" - a diferença é que é tudo verdade. Os trechos mais impressionantes deste filme, escolhido como melhor documentário no Festival de Sundance de 2003, estão encharcados das melhores e maiores contradições da vida real, livres de qualquer traço da encenação dos "reality shows" da TV, com seus roteiros combinados e escândalos de encomenda. Por isso mesmo, não há como ver sem atordoamento trechos das discussões da família Friedman, filmadas pelo próprio filho mais velho, David Friedman, quando o pesadelo judicial que fraturou o clã, em 1988, já estava em pleno funcionamento.Em 1987, o professor aposentado Arnold Friedman e seu filho caçula, Jesse, de 18 anos, foram acusados de pedofilia e do estupro de dezenas de garotos, todos moradores de Long Island, onde a família residia sem problemas há décadas. Tudo começa com a descoberta de que Arnold recebia revistas pornográficas com fotos de pedofilia, o que o coloca na mira de uma ampla investigação, da qual resultam as acusações de estupro contra crianças que eram seus alunos de computação. Procurando colocar-se eqüitativamente diante de uma questão tão controversa, o diretor de primeira viagem Andrew Jarecki alinha depoimentos dos Friedmans, de policiais, promotores, vizinhos, amigos dos réus e das supostas vítimas. Ao final, ficam muitas dúvidas sobre tudo o que realmente ocorreu, que provavelmente, nunca será conhecido por inteiro. Há algumas semelhanças com o caso da Escola de Base, ocorrido em São Paulo, uma vez que os próprios investigadores admitem que Arnold e Jesse foram condenados num processo em não havia uma única evidência material dos estupros, apenas depoimentos de crianças que eram passíveis de indução, sem contar visíveis sinais de histeria coletiva, comuns em casos assim. Por outro lado, sobram evidências da atração sexual que Arnold Friedman sentia e, assumidamente, exerceu com alguns meninos, inclusive seu próprio irmão, quando ambos eram garotos. Sem julgar nenhum dos envolvidos, o filme de Jarecki fornece amplo material para reflexão sobre a natureza humana, a manipulação da verdade, a máquina da justiça, o espetáculo da mídia e muitas outras questões.
