03/06/2026
Documentário

Sob a Névoa da Guerra

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Editando mais de vinte horas de entrevistas com o ex-secretário de Defesa americano, Robert McNamara, o documentarista Errol Morris compõe um fascinante painel da história mundial recente, neste filme vencedor do Oscar de melhor documentário em 2004. Originalmente, McNamara, que tem hoje 85 anos, só havia se comprometido a dar uma hora de entrevistas. No curso do relacionamento com o cineasta, mudou de idéia e ampliou largamente a duração e o alcance de seus depoimentos, que, às vezes, não escondem um bocado de emoção.

Homem de vasta cultura, McNamara atuou sete anos (entre 1961 e 1968) como secretário de Defesa, sob os presidentes John F. Kennedy e Lyndon Johnson. Foi em sua gestão, portanto, que teve início a Guerra do Vietnã. Mais de três décadas depois do final do conflito, McNamara faz uma surpreendente autocrítica sobre a questão, lamentando que os EUA não tenham compreendido a tempo que, para os vietnamistas, a guerra contra os americanos era apenas a última batalha de sua independência (que havia começado contra os colonizadores franceses). Portanto, os vietnamitas sentiram que tinham de ganhar - e ganharam.

Outro episódio crucial de que o ex-secretário participou ativamente foi a Crise dos Mísseis em Cuba, em 1962. McNamara recorda-se que a CIA estava convencida, na época, de que Cuba dispunha apenas de mísseis nucleares, mas não das ogivas. Por isso, acabou não acontecendo o bombardeio do país de Fidel Castro, que fatalmente levaria a uma III Guerra Mundial. Entretanto, 30 anos depois, o próprio Fidel revelou a McNamara que havia diversas ogivas em Cuba em 1962 e que ele mesmo, Fidel, recomendara ao então líder soviético, Nikita Kruschev, que as usasse - mesmo sabendo que Cuba seria varrida do mapa.

Com a mesma franqueza, McNamara recorda-se de sua participação do bombardeio de Tóquio, como oficial da Força Aérea durante a II Guerra Mundial,- que custou 100.000 vidas numa única noite apenas na capital japonesa, sem contar os ataques a outras grandes cidades daquele país. Mesmo não escondendo que, como ser humano, sente culpa diante do episódio, McNamara também não se furta a alinhar as razões políticas e militares que os EUA tiveram para agir dessa maneira.

Dono de uma memória prodigiosa, McNamara é um esplêndido objeto para um documentário e parece ter decidido deixar seu testemunho para a História. Bem faria o atual governo americano se lhe desse ouvidos, quando ele afirma que a grande lição que os EUA deveriam ter aprendido no Vietnã seria evitar ações unilaterais e procurar apoio de aliados.
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