19/07/2026
Documentário

Ser e Ter

O cotidiano de um professor numa escola primária no interior da França é o tema desse premiado documentário exibido no Festival de Cannes.

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Longe de salas informatizadas e brinquedos sofisticados, ainda existem no interior da França escolas nas quais em apenas uma sala se reúnem, sob a tutela do mesmo educador, todas as crianças da região. Juntos, alunos de 4 a 10 anos, compartilham uma educação intimista, voltada a um aprendizado coletivo.

Apesar da diferença etária, a serenidade do professor e a influência da família criam um ambiente lúdico, onde cada criança constrói seu próprio conhecimento frente às atividades curriculares que extrapolam os limites da sala de aula. Essas escolas não apenas mostram que a educação depende dos educadores que a compõem, como também que a criatividade deve ser o instrumento-mestre de toda a vivência escolar.

Essa prática pode ser vista neste filme, merecidamente um dos selecionados oficiais do Festival de Cannes 2002. Neste sensível documentário, o diretor Nicolas Philibert faz um verdadeiro elogio à aprendizagem coletiva e ao respeito pelo outro, quando nos coloca no lugar de crianças em pleno processo de formação do conhecimento e da identidade pessoal.

Trata-se da metodologia pedagógica de Georges Lopez, professor que conduz as crianças pacientemente até a adolescência, participando de suas discussões e escutando os problemas de cada um. Vê-se aí a face mais modelar de como se pode trabalhar com a heterogeneidade discente, nas câmeras trêmulas de Philibert. Mais do que uma aula, durante as quatro estações - mostradas com uma acolhedora fotografia - o espectador presta-se a uma lição social.

Os relatos emocionantes do cotidiano escolar, por vezes hilários, podem ser muito mais esclarecedores do que palestras realizadas em grandes feiras sobre educação. E evidenciam a delicadeza com que o diretor consegue mostrar um cinema educativo, dispersando as fronteiras entre cinematografia e aprendizagem. A improvável união entre as entidades francesas Centre National de Documentation Pédagogique e o Centre National de la Cinématographie (CNC), que colaboraram com a produção, rende bons frutos.

Desta forma, a produção tem um saldo bastante positivo. Ao resgatar a história do educador Georges Lopez, Philibert presta um serviço a muitos professores que parecem ter esquecido as bases da convivência escolar. Por outro lado, encontramos um documentário honesto, em que o principal é não apenas entreter, mas mostrar ao espectador que se pode aprender em qualquer lugar, com qualquer pessoa e sempre.

Encontrando esse equilíbrio especial entre informação e emoção, o filme foi um inesperado sucesso de público na França, onde foi visto por dois milhões de espectadores. Ironicamente, o sucesso trouxe problemas ao diretor: o professor Lopez decidiu processá-lo, acreditando fazer jus a compensações financeiras. Um caso que abriu discussões sobre os limites da utilização da imagem em documentários.

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