Um dos momentos mais bonitos, líricos e até cômico de Osama é também o mais triste retrato de uma realidade. Logo no início, uma passeata de mulheres, todas cobertas com uma burka azul, invade as ruas de um vilarejo no Afeganistão, durante o regime opressivo dos talibãs. A beleza plástica dessa imagem acaba sendo sobreposta pela cruel realidade que essas mulheres enfrentam. Como não podem mostrar seus rostos, elas gritam bem alto, para que suas vozes sejam ouvidas. Vivendo sob um regime no qual a mulher não tem qualquer valor, elas ousam desafiar as autoridades. E a passeata tem um final violento com a chegada dos soldados do regime.É nesse cenário desolador que o diretor estreante Siddiq Barmak situa o seu filme, ganhador do Globo de Ouro de melhor produção estrangeira de 2003. Uma menina e sua mãe lutam para sobreviver numa casa habitada só por mulheres. Elas trabalham em um hospital e são obrigadas a conviver com o sofrimento e a impotência, não só pelo fato de serem mulheres, mas também pela falta de recursos em todo o país. Para piorar, o talibã toma o hospital e as duas ficam confinadas em casa.Passando por enormes dificuldades, a mãe encontra uma forma de tentar driblar essa opressão e disfarça a filha de menino e consegue que um amigo lhe dê um emprego. Embora mantenham essa dinâmica por um tempo, a situação da menina se complica quando o talibã recolhe todos os garotos da cidade e os leva para um centro de treinamento. É nesse lugar que a menina vai ganhar o inusitado nome de Osama. Rodado logo após a queda do talibã, o diretor fez um filme encharcado por uma raiva que acaba se transformando em tristeza. Sem precisar fazer muito esforço, Barmak conta uma história local, mas com um apelo universal: o desejo de liberdade, inerente a todo ser humano. Além de mostrar claramente para o resto do mundo uma realidade restrita aos moradores locais, o filme é daqueles que causam constrangimento em platéias de qualquer lugar do planeta. Nele vemos seres humanos que, em pleno século XXI, são tratados como se vivessem na Idade Média.O elenco é todo formado por moradores locais, nenhum profissional. Marina Golbahari, a menina que faz o papel de Osama, encontrada na rua, consegue dar toda a dimensão do sofrimento e complexidade de sua personagem, que não só é obrigada a viver sob o perigoso regime, mas também acaba tendo de anular a sua identidade ao se passar por menino. Barmak conseguiu fazer um filme sentimental sem ser piegas. Uma denúncia que é mais do que bem-vinda nesses tempos de cinema globalizado, onde se torna necessário resgatar os valores locais. Ao mesmo tempo, Osama é o retrato de um episódio da história recente de um país que todos esperam que não se repita.
