Vincent ( Aurélien Recoing) é um homem de meia-idade, com uma confortável casa num subúrbio classe-média da França, mulher e três filhos. A primeira vista ele parece seguir o clássico modelo workaholic, dedicando muito tempo para o trabalho e pouquíssimo para a família. Nos fins de semana, aplaca o remorso mergulhando totalmente nas atividades familiares, participando de bazares com a esposa e acompanhando as competições de judô do filho adolescente. Esse parece ser o retrato de um trabalhador moderno, esboçado nos primeiros minutos de A Agenda (L'Emploi du Temps,) o segundo filme do diretor francês Laurent Cantet. Mas essa é uma falsa idéia. Na realidade, Vincent perdeu o emprego e não encontrou coragem para contar à mulher nem aos pais, vizinhos próximos. Ele mantém as aparências, como se estivesse ainda empregado, seguindo a mesma rotina do passado.
Fantasioso demais? Nem tanto. Histórias semelhantes acontecem com freqüência no Japão, um país onde trabalhar virou sinônimo de viver. Mas o diretor, de 41 anos, buscou inspiração em fontes mais próximas, reportadas pela imprensa francesa. Em 1993, um falso médico sustentou sua farsa durante 18 anos e o final foi dramático: matou a mulher, os dois filhos, os pais, o cachorro e ateou fogo à casa quando tudo foi descoberto. Cantet não vai tão fundo, nem precisaria, porque o que pretende é lançar um olhar sobre o trabalho na vida das pessoas, principalmente entre uma parcela de trabalhadores, como Vincent, vítimas da competição estressante desses tempos globalizados e obrigados a tomar decisões solitariamente, sem o amparo de poderosas máquinas sindicais. A história de gente como Vincent só interessa quando se transforma em tragédia. Como dizia um antigo samba de Chico Buarque, a dor da gente não sai nos jornais.
Mesmo sem o componente da tragédia irreversível que atingiu Jean-Claude Romand, em 1993, o drama de Vincent não deixa de ser sufocante. Para sustentar a mentira ele é obrigado a fantasiar ainda mais sua história, criando um mundo paralelo no qual tudo parece fazer sentido.
Vincent diz à mulher (Karen Viard) que está em vias de deixar o emprego (na verdade está desempregado há várias semanas) e já tem quase certo um substituto, na Suíça. E ele realmente viaja para o país vizinho, de carro, e passa os dias entrando em escritórios apenas para permanecer sentado num canto até ser descoberto pela segurança e dormindo em estacionamentos de hotel. Pelo celular comunica-se com a mulher e inventa contatos, reuniões. Nos fins de semana retorna para casa.
Nessas intermináveis viagens para a Suíça, que duram oito meses, acaba desenvolvendo um plano para obter dinheiro. Convence colegas a aplicar em fundos de países emergentes, com alta lucratividade. Ele será o intermediário das transações. O plano vai bem até o momento em que passa a ser cobrado por um investidor, preocupado com a falta de informações do banco. As mentiras começam a ficar insustentáveis e está próximo o momento do confronto com a realidade.
Cineweb-4/10/2002
