O nome do russo é complicadíssimo, quase impronunciável: Andrei Zvyagintsev, mas seu belo filme O Retorno, Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2003, será sempre fácil de recordar. Numa desolada e gélida região do norte da Rússia, um jovem pai retorna a casa sem aviso depois de uma longa ausência.
No dia seguinte sai em viagem com os filhos adolescentes que mal o conhecem, Ivã e Andrei. É uma longa peregrinação por terra e mar até uma ilha remota. Durante todo o percurso, ele se mostra duro, disciplinador e algumas vezes injusto. Como os dois rapazes, o espectador nada mais sabe sobre este homem, carregado desde o início de simbologias e referências metafóricas, míticas, inclusive bíblicas.
Enquanto os irmãos, muito diferentes entre si, disputam o afeto do pai de quem sempre sentiram a falta, em torno deste homem com freqüência brusco e às vezes até violento cria-se um enigma que não se resolverá jamais - Um terrorista? Um mafioso? Um fugitivo?
Em um cenário sempre mais selvagem, os dois menores afinal chegam à maturidade, "libertando-se" dessa figura opressora embora necessária. O filme, mesmo não resolvido dentro dos padrões da lógica cartesiana, é mágico, com maravilhosos tempos de narrativa carregados de pressão psicológica. Cinéfilo torrencial, Zvyagintsev é um repositório de influências, algumas mais, outras menos visíveis.
