Ao recorrer à mitologia grega ao mesmo tempo em que finca um pé no submundo, o jovem diretor e roteirista francês Bertrand Bonello (de O Pornógrafo) arrisca-se em várias direções. E não se sai satisfatoriamente em nenhuma.
Por curiosidade, o filme tem como intérpretes do papel do protagonista Tirésia dois atores brasileiros radicados na França, Clara Choveaux e Thiago Teles. Um detalhe que busca pôr em relevo a ambivalência sexual do personagem mas que o fato de dividir-se entre um homem e uma mulher acaba tornando inconsistente.
Tirésia (na primeira metade do filme, vivido por Clara) é um transexual brasileiro que se prostitui nos subúrbios de Paris. Sua bela figura atrai a atenção de um homem (Laurent Lucas) que a leva para seu apartamento. Lá chegando, resolve prender o travesti, guardando-o só para ele - uma situação que remete ao bom e velho O Colecionador (1965), em que Terence Stamp aprisiona uma moça (Samantha Eggar), como se fosse uma borboleta de coleção. Só que aqui temos um padre católico, François, incapaz de lidar com o conflito entre o seu desejo e a religião.
De nada adiantam os gritos, súplicas e protestos de Tirésia. François (que ele não sabe que é padre) não a solta. O aprisionamento provoca ainda um outro fenômeno: sem tomar os seus hormônios, o travesti volta a desenvolver a barba e outros sinais evidentes de sua masculinidade suprimida. Inconformado com esta transformação, o padre cega Tirésia e abandona-o para morrer num bosque. Entretanto, ele é salvo por uma garota (Célia Catalifo), que o acolhe em sua casa.
Nessa nova vida, este Tirésia cego (agora interpretado por Thiago Teles) descobrirá um novo dom - o da profecia. Aí se explica o nome do personagem, que tem sua origem em Tirésias - na grafia portuguesa -, o mítico adivinho grego que prevê a tragédia de Édipo na peça Édipo Rei, de Sófocles. Mas não terá vida fácil este novo profeta. Quem o procure em busca de saber o futuro, não se conforma quando ele anuncia más notícias. E à Igreja, representada pelo mesmo padre François, incomoda a concorrência mística. Um conflito que não é bem-resolvido na história, como tudo o mais.
Além dos atores, o Brasil comparece em outras referências, nem todas boas. Uma das principais canções da trilha, cantarolada em duas cenas por Clara Choveaux, é a conhecidíssima Teresinha de Jesus, de Tomaz Lima. Na entrevista coletiva do Festival de Cannes/2003, o diretor explicou que o personagem mitológico Tirésias era seduzido pela música. Assim, na visão de Bonello, era preciso encontrar uma canção para ele, que fosse "ou espetacular ou infantil". Bonello, afinal, decidiu-se por esse último tom. Ouviu diversas canções infantis brasileiras e contou com a ajuda da atriz Clara para a tradução que aparece no filme.
A outra menção ao Brasil é bem mais polêmica. A bandeira brasileira aparece em destaque, afixada na parede do apartamento dos travestis - enquanto eles mantêm uma conversa bastante chula. O diretor explicou que a colocação da bandeira nesta cena não teve qualquer intenção especial. Bonello revelou que tinha visto a bandeira assim aberta nas paredes de todos os apartamentos dos travestis brasileiros que visitou em Paris. Admitiu que considerou esse detalhe "um pouco excessivo" mas resolveu mantê-lo no filme - como um "toque meio documental" do ambiente de seus personagens.
