04/06/2026
Drama Comédia

Histórias de Cozinha

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Premiado na 27a Mostra Internacional de Cinema com o troféu de melhor diretor para Bent Hamer, este filme foi uma das boas surpresas da seleção do festival paulistano em 2003, por sua precisa combinação de humor, nonsense, crítica social e emotividade.

O nome remete a uma inusitada experiência de observação. Nos anos 50, um estudo sueco (e os suecos são implacavelmente ironizados nesta produção sueco-norueguesa, lembrando diferenças semelhantes às de brasileiros versus argentinos) visa pesquisar os hábitos de homens solteiros da Noruega em suas cozinhas. Enviam-se, então, pesquisadores às casas de alguns voluntários para que registrem, em detalhados diagramas, todos os movimentos esboçados pelos moradores dentro desse espaço.

Problemas aguardam o pesquisador Folke (Tomas Norström), pois seu hospedeiro, o velho Isak (Joachim Calmeyer), quer voltar atrás e nem começar a participar do estudo. A duras penas, Folke impõe sua presença, sentando-se na cozinha numa cadeira de pernas altas que lembra as estruturas usadas por salva-vidas em praias.

Forçado a acolher o intruso, Isak move-lhe a princípio uma guerra sem tréguas. Chega ao cúmulo de não mais preparar suas refeições na cozinha, e sim num fogareiro em seu quarto, apenas para frustrar a intenção de Folke de observá-lo. Nessa primeira metade, o filme é uma comédia de cinema mudo, praticamente sem diálogos, já que os protagonistas não se falam - aliás, o regulamento da pesquisa proíbe qualquer confraternização entre pesquisadores e pesquisados. Mas nesta casa o gelo irá quebrar-se.

Pouco a pouco, os dois homens, indiscutivelmente solitários, encontram um denominador comum. A distância transforma-se em amizade, para desespero do amigo de Isak, Grant (Bjorn Flobertg), que monopolizava seus contatos humanos. Construindo sua narrativa em torno dessa progressiva inversão de expectativas, a história tece um esperto comentário em torno da estupidez da burocracia - representada pelo supervisor da pesquisa, Malmerg (Reine Brynolfsson) -, cuja contestação abre caminho para a conquista da intimidade, da afetividade, do verdadeiro sabor da existência. E aí o filme consegue ser comovente, sem um pingo de pieguice.

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